Título: Projeto de educação em reservas anda para trás
Autor: Alencastro, Catarina
Fonte: O Globo, 31/07/2011, O País, p. 16

Plano é engavetado; com escolas só até a 4ª série, ribeirinhos vão para as cidades e retornam com hábitos urbanos

BRASÍLIA. A presidente Dilma Rousseff abandonou um programa apoiado pelo governo Lula em uma área que liga educação, meio ambiente e viés social - tripé que ela encampou na campanha eleitoral. Gestado na Secretaria de Assuntos Estratégicos em 2010, o projeto "Educação e Qualificação para Comunidades Extrativistas" contava com o aval pessoal do ex-presidente e do então secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad), André Lázaro, do Ministério da Educação, que foi substituído. E o plano acabou engavetado.

O projeto, também chamado de "Saberes da Floresta", atenderia uma das populações mais vulneráveis do país: ribeirinhos que moram nas 89 Reservas Extrativistas (Resex) e de Desenvolvimento Sustentável (RDS) da Amazônia. Representando as comunidades, o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) passou um semestre trabalhando na elaboração do programa, que preencheria o vácuo do ensino de crianças, jovens e adultos que moram nessas Unidades de Conservação.

- Houve uma fase de transição e não conseguimos falar com a Secad. O pessoal (ribeirinhos) ficou meio desanimado porque tinha trabalhado muito. Houve uma carta para a presidente Dilma, que disse que ia agendar um encontro, mas não agendou. Atribuo isso à transição de governo. A gente resolveu dar um tempo até as pessoas se assentarem. Estamos em condições de retomar a proposta - disse Mary Allegretti, consultora ambiental que coordena o projeto. Ela ainda tem esperanças de que a pauta seja aproveitada pelo novo governo.

Presidente do CNS, Manoel da Cunha conta que a maioria das comunidades só tem escolas até a 4ª série do ensino fundamental. Por isso, grande parte dos jovens sai da floresta rumo às cidades para continuar os estudos. Com esse movimento, nas reservas ficam apenas velhos, mulheres e crianças. Para os que deixam os lares, as consequências são ainda piores: acostumados com uma vida voltada para a família e a natureza, os adolescentes não raro cedem a tentações urbanas como o álcool e a prostituição.

- Além de as comunidades ficarem esvaziadas, a tragédia maior é o que acontece quando esse caboclo vai para o mundo urbano. Ele chega lá despreparado e, muitas vezes, começa a beber muito, e as meninas caem na prostituição - relata Cunha, que é morador da Resex do Médio Juruá (AM), onde vivem 700 famílias.

Nessa reserva, a atividade principal é o extrativismo de borracha e de açaí. Cunha afirma que poucos egressos que vão estudar fora retornam à comunidade e, quando isso acontece, os "forasteiros" acabam desagregando as famílias com os novos hábitos e costumes que trazem consigo.

- O namoro urbano é diferente. Quando ele (quem vai estudar fora) volta, quer fazer o mesmo aqui, aí vêm os problemas: gravidez na adolescência, briga entre as famílias. Uma coisa dessas para um pai da comunidade é o fim da picada - aponta.