Título: Qual é a agenda?
Autor: Medeiros , Antônio Carlos de
Fonte: O Globo, 02/08/2011, Opinião, p. 7

A presidente Dilma Rousseff tem o grande desafio de administrar expectativas. É disso que se trata quando se olha para a conjuntura.

A saída para a superação das crises precoces do governo Dilma poderá estar na capacidade da presidente de re-equilibrar a base aliada pela via da micropolítica da gestão das emendas parlamentares e das mudanças nos escalões do governo, mas principalmente pela via da comunicação com a sociedade e rearticulação de uma agenda de estado - de uma ideia-força.

O governo Dilma chegou com a marca da continuidade e do avanço. Mas se ressente de problemas para a construção de uma agenda de Estado que forneça imagem nítida ao seu governo, bem como tem problemas de mediação política, mesmo que com maioria clara e cabal no Congresso Nacional.

Qual é a química característica do governo Dilma? E quais serão os moderadores? Lula representa poder imanente que ajuda a soldar a coalizão dominante hoje no Brasil. Este é um dado de realidade e não há nada de esquizofrenia política nem de "tutela" nisso. A autoridade é a da presidente, mas o poder imanente de Lula tem dimensão real de poder moderador.

Entretanto, a coalizão só se sustenta se a legitimação política da presidente ampliar-se para além da base aliada congressual, com liga na sociedade. Uma agenda de Estado já existe no Brasil pós-estabilização econômica de Itamar-FHC e pós-inclusão social de Lula. Mas qual é a "Agenda Dilma"? Mesmo com os programas já lançados, esta agenda ainda não ganhou nitidez, compreensão na sociedade e legitimidade nas forças políticas.

Uma "Agenda Dilma" precisa articular suas características de liderança focada na dimensão da gestão com os gargalos fundamentais para o desenvolvimento, isto é, os problemas de infraestrutura e os problemas de qualidade na educação. Superar os gargalos na prestação dos serviços públicos e os gargalos ao desenvolvimento com inovação e agregação de valor e geração de riqueza social, para além do modelo de exportações de commodities.

Com quem, prioritariamente, construir esta agenda e a ponte com a sociedade? A presidente precisa ampliar o leque. Dois atores são cruciais: os governadores e os movimentos sociais.

Por último, mas não menos importante, o governo Dilma precisa conectar-se de forma mais abrangente e profunda ao ciberespaço, trazendo as redes sociais para ampliar os diálogos do seu governo com a sociedade, a exemplo do que está fazendo o governador Anastasia em Minas Gerais, com o seu projeto Minas em Movimento.

É preciso ganhar a batalha da mediação e da legitimidade políticas. Para administrar as expectativas.

ANTÔNIO CARLOS DE MEDEIROS é cientista político.