Título: Jobim diz que tem prazer de ficar no governo
Autor: Barbosa, Adauri Antunes; Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 02/08/2011, O País, p. 5

Ministro afirma que "todo mundo" sabia que era amigo de Serra; permanência no cargo depende de conversa com Dilma

SÃO PAULO e BRASÍLIA. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, negou ontem que deseje deixar o governo e afirmou que sua relação com a presidente Dilma Rousseff, a quem classificou de extraordinária, é ótima. Em entrevista ao programa "Roda Viva", da TV Cultura de São Paulo, disse que se surpreendeu com a repercussão de sua declaração de que votou no tucano José Serra, nas eleições presidenciais de 2010. Perguntado se pretende deixar o governo, negou:

- Não, absolutamente não. Tenho projetos para tocar - disse: - Estou no governo porque me dá prazer. Já fui advogado, professor, deputado, e tudo o que faço, faço com gosto. Sou ministro com prazer. Tenho desejo de continuar.

Apesar das declarações de Jobim no programa, a permanência do ministro era uma incógnita ontem à noite no Palácio do Planalto. Segundo interlocutores, Dilma permanecia contrariada com a afirmação de Jobim de que votou em Serra. A permanência dele está condicionada a uma conversa que os dois terão, e que pode acontecer hoje.

Jobim negou qualquer problema com Dilma e a elogiou:

- A presidente Dilma é extraordinária. Minha relação com ela é ótima. Não tenho nenhum problema com ela. Dilma tem visão de Estado e de futuro, tem noção muito clara das tendências do mundo - afirmou.

Após a gravação do programa, disse que sua permanência depende só de Dilma:

- A presidente é quem decide essas coisas. Evidentemente, há um projeto do qual sou entusiasta, um projeto novo, que é o projeto de implantação do novo modelo de defesa que, se puder continuar, tudo bem. Se não puder continuar, tudo bem.

Jobim explicou que conversou com o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no começo da campanha de 2010, e disse que era "amigo íntimo" de Serra, seu padrinho de casamento. Por isso tinha dificuldade de apoiar Dilma:

- Disse a ele (Lula) que eu não tinha condições nenhuma de fazer campanha contra o Serra, isso de natureza pessoal, inamovível.

O ministro afirmou ter se surpreendido com a repercussão da sua declaração de voto:

- Fiquei surpreso com as consequências do resultado. Todo mundo sabia das minhas relações com o Serra, inclusive antes do governo.

Ele reafirmou que se referia a jornalistas quando criticou os "idiotas e imodestos", e não a integrantes do governo:

- O problema é que alguém pode não acreditar, mas eu não sou dissimulado. Sempre fui assim. Sempre disse o que pensava e sempre disse o que faço.

Segundo Jobim, dificilmente a compra dos caças para a Aeronáutica sairá este ano, sobretudo por causa do aperto orçamentário. Um dos projetos que mais o animam é o que incentiva a consolidação de um parque industrial nacional ligado à defesa.