Título: O objeto de desejo de Meirelles
Autor: Pires, Luciano
Fonte: Correio Braziliense, 23/08/2009, Economia, p. 18
A possível candidatura do presidente do Banco Central entusiasma empresários e investidores goianos, que veem como virtude a sua experiência internacional
Goiânia ¿ Os olhos do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles(1), não brilham por Goiás sem motivo. Dono da nona economia mais rica do país, o estado tem taxas de desenvolvimento civilizadas, parque industrial diversificado, além de um potencial agropecuário quase inesgotável. Tantas qualidades fazem da região uma espécie de joia a ser lapidada. Principal maestro da política econômica do governo Luiz Inácio Lula da Silva, Meirelles corre em busca de apoio para subir no palanque e, quem sabe, ser o próximo governador goiano.
Nos últimos 20 anos, Goiás alternou momentos de pujança e estagnação. A forte vocação agrícola favoreceu o surgimento de ilhas extremamente competitivas dentro do estado. A colheita de grãos e o rebanho de gado cresceram. As populações de aves e suínos, também. Celeiro estratégico, o estado caminha para incrementar nos próximos seis anos em 30% ou 40% a safra de grãos, graças à intensa mecanização e ganhos de produtividade. O mesmo deverá ocorrer com as carnes, conforme previsões dos especialistas.
Os incentivos fiscais e as isenções de impostos autorizados por sucessivas administrações sempre foram o motor da economia de Goiás. Continuam a ser e a atrair gerações de indústrias. A manutenção ou a ampliação do poder dessas ferramentas impulsionam o processo de consolidação do parque industrial, que ganhou em porte e em variedade. ¿Os programas oficiais de incentivo foram muito importantes para chamar as empresas. Sem eles as coisas levariam mais tempo para acontecer¿, explica Maguito Vilela, ex-governador e atual prefeito de Aparecida de Goiânia.
Além das atividades tradicionais ligadas ao campo, ganharam espaço setores como o farmacêutico, químico e automobilístico. Os empreendimentos voltados à geração de energia também se beneficiaram. Usinas de etanol, multinacionais de extração mineral e empresas de reflorestamento fincaram bandeira em Goiás e estão em franca expansão. Nem a crise econômica internacional afugentou os investidores.
PIB dividido As forças produtivas ainda não declaram voto, mas veem com entusiasmo a possível candidatura do presidente do Banco Central. Segmentos do campo, da indústria de alimentos, dos serviços e do comércio acreditam que a credibilidade internacional e o jogo de cintura são dois ativos que poderão contar a favor do banqueiro nas urnas. ¿Os candidatos que se apresentaram até o momento têm ótima relação com o empresariado, mas o Meirelles se destaca pela abrangência mundial¿, resume um empresário de Goiânia que acompanha de perto o cenário pré-eleitoral.
O currículo internacional e as boas relações com organismos multilaterais seduzem a parcela do PIB goiano que se instalou no estado recentemente. Na avaliação desses empresários, o presidente do BC é um captador nato de recursos, uma espécie de ímã. ¿O Meirelles conhece o mundo e o mundo conhece o Meirelles. Isso não é pouca coisa. Fontes de financiamento são a base de quase tudo na economia¿, diz um importante observador da política estadual goiana.
As bases para novos investimentos estão quase que totalmente restabelecidas. Passado o pior momento da crise econômica mundial, Goiás voltou a ser plataforma para novos projetos. Durante o primeiro semestre de 2009, os desembolsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aumentaram 18% na comparação com o ano passado. O dinheiro, usado diretamente na produção, apresenta resultados imediatos. ¿Esse é um momento especial. As indústrias estão procurando o estado. O incentivo fiscal é uma das atratividades, mas a fartura de matéria prima e a mão de obra, que vem se especializando, também ajudam¿, explica Paulo Afonso Ferreira, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg).
Suspense Há 10 dias, a candidatura de Meirelles foi lançada extraoficialmente com entusiasmo pelo presidente da República. Durante a inauguração de obras federais em Anápolis, Lula pediu votos para o auxiliar: ¿Se o Meirelles conduzir a economia de Goiás como ele conduziu o Banco Central, Goiás só tem a ganhar. Goiás vai ter um administrador excepcional porque o Meirelles é muito competente¿, disse Lula. A ação constrangeu Íris Rezende (PMDB), prefeito de Goiânia e um dos prováveis candidatos ao governo de Goiás.
Meirelles despista. Ao Correio, o presidente do Banco Central diz que está concentrado integralmente no trabalho à frente da autoridade monetária: ¿É uma questão para o próximo ano. Estou totalmente fora da articulação política em Goiás¿. Segundo ele, a decisão de filiar-se a um partido político ainda não está tomada.
Aos amigos, Meirelles tem reforçado que não pode, como presidente do BC, articular sua candidatura. A atuação política, acredita, poderia despertar uma enxurrada de críticas por parte do mercado. Grupos que defendem a candidatura de Meirelles ao governo de Goiás tentam fechar alianças. O prazo para a filiação de Meirelles a alguma legenda termina em 30 de setembro.
1- Um político no BC O presidente do Banco Central elegeu-se deputado federal em 2002 pelo PSDB depois de uma carreira sem arranhões à frente do BankBoston. Candidato mais votado em Goiás, teve de renunciar ao mandato para assumir a autoridade monetária. O sonho de disputar um cargo público ficou na gaveta até agora.
Se o Meirelles conduzir a economia de Goiás como ele conduziu o Banco Central, Goiás só tem a ganhar. Goiás vai ter um administrador excepcional porque o Meirelles é muito competente¿