Título: Republicanos lutam por aprovação de proposta
Autor: Eichenberg, Fernando
Fonte: O Globo, 29/07/2011, Economia, p. 21
Discussão na Câmara é atrasada enquanto líder da oposição tenta conquistar votos. Senado avisou que derrubará plano
WASHINGTON. Até o início da noite de ontem, a Câmara de Representantes dos Estados Unidos ainda debatia em plenário a proposta do líder da maioria republicana, John Boehner, para elevar o teto da dívida nacional, cujo prazo se esgota no próximo dia 2. A votação, prevista para o fim da tarde, foi adiada quando os líderes republicanos avaliaram não obter as 216 vozes necessárias para a aprovação do projeto lei, que, mesmo passando pelo Senado, seria vetado pelo presidente Barack Obama. Além da rejeição dos democratas, os republicanos ultraconservadores do Tea Party são contra o plano de Boehner.
Nos bastidores, parlamentares debatiam outras opções. O Congresso permanecerá em sessão durante todo o fim de semana, na expectativa de alcançar um consenso bipartidário para elevar a capacidade de endividamento federal, hoje no limite de US$14,3 trilhões.
Os democratas vêm acusando os republicanos de perder um tempo precioso. Além do anúncio do veto por parte de Obama, o líder da maioria democrata no Senado, Harry Reid, disse ontem que se a proposta de Boehner passasse na Câmara ele a levaria imediatamente ao Senado para rejeitá-la.
Para analista, governo pagará até 60% das obrigações
Embora ainda acredite numa solução para o impasse, o governo estuda uma escala de prioridades de pagamentos se não houver acordo até 2 de agosto. Ontem, o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, discutiu o assunto com Obama. No topo das prioridades estariam os vencimentos dos títulos do Tesouro - há um no valor de US$90 bilhões, no dia 4, e outro de US$29 bilhões no dia 15.
O Tesouro ainda confirmou o leilão de títulos de três e seis meses na próxima segunda-feira, véspera da data-limite para o aumento do teto da dívida federal. A venda deverá arrecadar US$87 bilhões, que seriam destinados para o pagamento dos juros da dívida.
Entre receitas estimadas de US$172 bilhões e despesas de US$307 bilhões, faltarão US$135 bilhões no caixa do governo para pagar todas as contas do mês de agosto. Para o economista Peter Morici, da Robert H. Smith School of Business da Universidade de Maryland, os EUA não vão decretar moratória depois do dia 2, mas enfrentarão uma pane de pagamentos.
- Mesmo a Grécia está pagando seus credores estrangeiros. Há recursos para o pagamento dos vencimentos dos títulos nos EUA. O governo será capaz de pagar entre 55% e 60% de seus compromissos, e o Tesouro certamente terá de honrar o pagamento dos juros da dívida para evitar a moratória. Mas terá de cancelar outros pagamentos, como, por exemplo, faturas de contratos públicos, com consequências para a economia - explicou Morici.
Ele exclui a hipótese de o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) usar artifícios para imprimir moeda e comprar títulos do Tesouro, a fim de evitar a moratória:
- Pode-se projetar algo nesse sentido, mas será necessária uma vontade política por parte do governo. Poderia se encontrar maneiras de imprimir não mais que US$200 bilhões este ano, para esse fim. Mas, por enquanto, eles estão concentrados em usar os recursos de que dispõem em caixa.
Para o economista, os temores sobre um possível rebaixamento do rating de crédito soberano do país pelas agências de classificação de risco são uma "grande bobagem".
- O Japão foi rebaixado e não foi afetado. Os EUA são uma enorme economia, e sua moeda é a reserva mundial. Se não entrarmos em default (calote), estará tudo bem, pelo menos pelos próximos 10 ou 20 anos - disse Morici.
Marc Weisbrot, do Center for Economic and Policy Research, também não acredita em moratória dos EUA.
- Essa catástrofe não vai ocorrer. Eu temo pelo futuro da Standard&Poor"s (agência que prometeu rebaixar os EUA). Os mercados financeiros já sabem que não teremos default, e mesmo com a nota dos EUA rebaixada não haverá preocupações nesse sentido pelos próximos 30 anos. O Japão foi rebaixado para "-AA" (a nota máxima é "AAA"), e não sofreu com isso - afirmou.
Weisbrot também invocou a possibilidade de uma nova emissão de dinheiro pelo Fed, embora hoje o governo não mencione essa opção:
- Os bancos centrais podem criar dinheiro para comprar títulos do Tesouro. Os EUA poderão, de algum jeito, fazer isso em interesse próprio.
A proposta de Boehner eleva o teto da dívida em cerca de US$900 bilhões, o que só bastaria para este ano. Em 2012, haveria um aumento de US$1,6 trilhão, condicionado a cortes de gastos de US$1,8 trilhão. O plano de Reid, por sua vez, é de US$2,7 trilhões.
Vantagem de Obama em intenção de voto recua
Hoje, Geithner vai se reunir com 20 instituições financeiras para discutir os planos do governo se o teto da dívida não for elevado, informou um funcionário do departamento, segundo o site MarketWatch. O Tesouro se reúne trimestralmente com essas instituições, antes de leilões de títulos.
Em meio ao impasse, Obama acabou perdendo a vantagem de dois dígitos que tinha em relação ao candidato republicano - ainda não escolhido - na eleições presidenciais de 2012, segundo pesquisa divulgada ontem pelo Pew Research Center. Segundo o estudo, feito entre os dias 20 e 24 com eleitores registrados, mostra Obama com 41% das intenções de voto, contra 40% para os republicanos. Em maio, o presidente tinha uma vantagem de 11 pontos percentuais.
(*) Com agências internacionais