Título: Mau uso do dinheiro público na Copa
Autor:
Fonte: O Globo, 29/07/2011, Opinião, p. 6
O Brasil ganhou, em outubro de 2007, o direito de sediar a Copa do Mundo de 2014 com um programa que colocava a iniciativa privada como a locomotiva dos investimentos necessários à realização de evento de tal porte. Quase quatro anos depois, o projeto patina em pontos essenciais - como o atraso em obras de estádios e infraestrutura, ou o banho-maria no qual as correntes estatistas do governo federal mantêm a modernização administrativa dos aeroportos - e avança sobre o bolso do contribuinte, contrariamente ao que havia sido dito pelas autoridades.
O exemplo mais bem acabado dessa mudança das fontes de financiamento é a construção do Itaquerão, futuro estádio do Corinthians. No perdulário vale-tudo a que se entregaram a União, o governo paulista e a prefeitura de São Paulo para garantir o duvidoso dividendo imaterial de fazer no estado o jogo de abertura da competição, rasgou-se sem qualquer escrúpulo o princípio de manter os cofres públicos ao largo dos gastos com o evento. Ao contrário, o que se vê é a completa estatização da obra, com um empréstimo a juros companheiros do BNDES (R$400 milhões), uma renúncia fiscal do município em favor do Fundo de Investimento Imobiliário responsável pela construção da arena (R$420 milhões) e um aporte de R$60 milhões a R$70 milhões do Palácio dos Bandeirantes. É justo que o Corinthians tenha o seu estádio, e é impensável que uma Copa do Mundo se realize no Brasil sem uma arena esportiva em São Paulo à altura da competição. Mas uma coisa não se atrela à outra - e se o clube paulista reivindica a construção de um bem próprio, que o faça a suas expensas e parceiros empresariais. Não é aceitável que dinheiro público esconda a incompetência de seus dirigentes diante de uma demanda cobrada pelos torcedores. Por sua vez, ao colocar os interesses da agremiação na carona do projeto Copa, os responsáveis pela engenharia financeira do torneio acabaram atrelando uma paixão - legítima - ao oportunista viés estatista de Brasília.O Itaquerão não é o modelo que deu origem às tortuosidades do projeto Copa, mas uma das consequências do oportunismo estatista que, do Planalto, contamina o programa de financiamento das obras. No Maracanã, deu-se a mesma coisa: anunciada como empreendimento público-privado, a reforma do estádio se sustenta nos cofres do estado e da União. À parte, entram na arena fluminense outros dois esbulhos não explicados. Um, a disparidade entre o orçamento e o que de fato está sendo desembolsado. Outro, o fato de o estádio ter passado por reformas (R$200 milhões) para o Pan de 2007 e o Mundial Interclubes de 2000 (R$100 milhões), obras igualmente com financiamento público e que, obviamente, se perderam. Com as louváveis exceções dos estádios de Porto Alegre e de Curitiba, há dinheiro público enterrado em todos os estádios em preparação para a Copa. A realização de uma Copa do Mundo, assim como as Olimpíadas, é momento inescapável para juntar a necessidade de se fazer obras de infraestrutura à oportunidade de atrair investimentos da iniciativa privada, ante a perspectiva de retorno futuro para a sociedade e investidores. No entanto, monta-se o projeto brasileiro no princípio de um capitalismo sem riscos, espetando-se a fatura dos investimentos na conta do contribuinte e distribuindo-se os dividendos (administração de estádios etc) a uma iniciativa privada que tem alergia ao empreendedorismo.