Título: Rossi fala hoje e tenta blindar PMDB e Temer
Autor: Jungblut, Cristiane; Braga, Isabel
Fonte: O Globo, 03/08/2011, O País, p. 10

CGU abre auditoria para apurar denúncias de irregularidades no Ministério da Agricultura, nas mãos do partido

BRASÍLIA. O PMDB acertou com o ministro da Agricultura, Wagner Rossi, sua ida hoje à Comissão de Agricultura da Câmara como estratégia para tentar encerrar o episódio das denúncias em torno da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e, assim, proteger de desgaste o vice-presidente Michel Temer, padrinho político de Rossi. Ontem, a Controladoria Geral da União instaurou auditoria para apurar as denúncias contra a Agricultura - pagamentos irregulares a empresas supostamente fantasmas, irregularidades no pagamento de sentenças judiciais e também avaliação e alienação de imóveis da Conab.

Além de auditoria, a CGU instituiu também uma comissão de sindicância para apurar especificamente as responsabilidades administrativas pelo pagamento supostamente indevido à empresa Renascença Armazéns Gerais Ltda. Esse pagamento foi autorizado pelo ex-diretor Financeiro da Conab Oscar Jucá Neto - irmão do líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR).

Rossi considerou o pagamento ilegal e, por isso, demitiu Jucá Neto. Na sequência, o irmão do senador Jucá deu entrevista à "Veja" afirmando que a corrupção está espalhada na Conab e na Agricultura. Em seu depoimento, hoje, o ministro vai tentar virar o jogo e mostrar que quem cometeu irregularidades na Conab foi justamente Jucá Neto. O PMDB já avisou ao senador Jucá que seu irmão não será poupado.

Ministros vão à Câmara, mas como convidados

Para evitar desgaste maior, como no caso do ex-ministro Antonio Palocci, o governo acertou com o PSDB que ministros irão à Câmara, mas como convidados. Os tucanos querem convocar mais quatro ministros citados em denúncias, além de Rossi: Paulo Sérgio Passos (Transportes); Mário Negromonte (Cidades); Izabella Teixeira (Meio Ambiente); Afonso Florence (Desenvolvimento Agrário); e Edison Lobão (Minas e Energia).

A avaliação dos peemedebistas, que se anteciparam ao pedido da oposição, é que a própria presidente Dilma Rousseff deu um sinal positivo, ao citar o nome de Romero Jucá no lançamento da política industrial, ontem, no Planalto. O líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), disse que o ministro estava tranquilo, e o PMDB também, negando que a sigla possa virar "bola da vez".

Com o compromisso do líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), de levar todos os ministros para audiências na Câmara, o líder do PSDB, Duarte Nogueira (SP), aceitou trocar as convocações por convites.

- Concordamos porque o líder do governo assumiu compromisso conosco de trazer os ministros. O governo percebeu que, quanto mais evita que os envolvidos venham, que protelem as explicações, é mais desgastante do que eventuais escorregadas - disse Duarte.

O vice-líder do governo na Câmara, Odair Cunha (PT-MG), confirmou a estratégia de levar os ministros ao Congresso, mas nem todos ficaram satisfeitos. No almoço com Ideli Salvatti (Relações Institucionais), o líder do PP na Câmara, Nelson Meurer (PR), cobrou do governo a defesa política dos seus ministros e disse que o ministro das Cidades não tem o que explicar:

- O governo tem de tomar providências contra o denuncismo na imprensa, esclarecer os fatos. Quem paga é a Caixa. A Caixa (Econômica Federal) autoriza os empréstimos, pede o empenho. Depois é pago por medição. É absurdo, deprimente. O ministro (Negromonte) não vai.

- O que o líder Nelson Meurer disse é que o governo tem que fazer a defesa contra as falsas denúncias. Mas não precisamos fazer, porque a verdade aparece. Muita coisa cai, como denúncia falsa - contemporizou Vaccarezza.