Título: Obama tenta acalmar mercados e critica S&P
Autor: Bôas, Bruno Villas
Fonte: O Globo, 09/08/2011, Economia, p. 19

Presidente culpa polarização política pela fragilidade da economia. Líder republicano resiste à alta de impostos

WASHINGTON. Acuado pelos temores de uma nova recessão econômica e pela artilharia da oposição republicana, com os radicais do movimento Tea Party à frente, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, procurou reagir ontem ao rebaixamento da nota de crédito soberano do país, de "AAA" para "AA+", pela agência de classificação de risco Standard&Poor"s (S&P). Após passar o fim de semana na residência oficial de Camp David, Obama retornou a Washington disposto a contra-atacar para recuperar a confiança dos americanos e tranquilizar os mercados.

- Os mercados vão subir e descer. Mas estes são o Estados Unidos da América. Não importa o que uma agência possa dizer, nós sempre fomos e sempre seremos uma nação "AAA". Apesar de todas as crises que passamos, temos as melhoras universidades, as melhores empresas, e os mais inventivos empreendedores - disse em pronunciamento na Casa Branca.

Mas o discurso, que era para acalmar os mercados, acabou tendo efeito inverso. As quedas nas bolsas globais se intensificaram após o pronunciamento.

Pressão sobre comissão bipartidária por acordo

Obama afirmou não precisar dos conselhos de uma agência de risco para determinar suas políticas econômicas e apontar deficiências políticas, nem para saber que o país necessita de uma abordagem equilibrada para alcançar a consolidação fiscal:

- Nosso problema não é nossa nota de risco, o mercado sabe que nossa economia é uma das mais seguras do mundo. O problema é a falta de vontade política de Washington.

O presidente culpou a polarização e "ideologização" do debate político nos EUA pela ausência de ações mais fortes para relançar a economia do país, e assegurou que fará pressão sobre a "Supercomissão", o comitê bipartidário encarregado de concluir a segunda etapa do acordo da dívida federal.

O acirramento político, entretanto, é crescente em meio à crise econômica. Eric Cantor, um dos líderes republicanos na Câmara, convocou ontem seus partidários a resistir à reforma tributária pretendida pela Casa Branca. "Nos próximos meses, haverá uma enorme pressão no Congresso para provar que a análise da S&P sobre a incapacidade dos partidos políticos em reduzir suas diferenças está equivocada. Em suma, haverá pressão por um acordo para o aumento de impostos. Vão nos dizer que não há outro caminho a seguir. Eu discordo respeitosamente", afirmou em nota.

Pré-candidato republicano: risco de perda de soberania

Aproveitando o mau momento de Obama, em queda nos índices de aprovação (entre 40% e 42%, segundo as últimas pesquisas de opinião), Mitt Romney, hoje o principal pré-candidato republicano às eleições presidenciais de 2012, disse ontem que os EUA poderão perder sua soberania se não houver uma "ação corretiva" imediata:

- O fracasso do presidente em reativar a economia e criar empregos é uma das razões pelas quais estamos vendo déficits tão altos e a dívida crescendo em níveis alarmantes.

Já o presidente do Comitê Nacional Republicano, Reince Priebus, exigiu mudanças urgentes na equipe econômica do governo, principalmente no Tesouro. "Obama precisa demitir o secretário (Timothy) Geithner por estimular políticas fracassadas que resultaram no primeiro rebaixamento da história dos EUA", tuitou o líder republicano.

No governo, a presidente do Comitê Nacional Democrata, Debbie Schultz, replicou pelo próprio Twitter, classificando os partidários do movimento Tea Party de "tiranos".