Título: Defesa é palavra de ordem na carteira de ações
Autor: Bôas, Bruno Villas
Fonte: O Globo, 08/08/2011, Economia, p. 24
Corretoras recomendam para agosto papéis que pagam bons lucros para se proteger da turbulência nos mercados
bruno.villas@oglobo.com.br
O tremor econômico que abalou os mercados internacionais na última semana sugere extrema cautela a investidores. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) registrou na semana um tombo de 9,99% pelo Ibovespa, seu principal índice, o pior desempenho desde novembro de 2008. E nada parece impedir novas perdas, especialmente após o rebaixamento da classificação de risco dos Estados Unidos pela agência Standard&Poor¿s (S&P), de ¿AAA¿ para ¿AA+¿, o que deve ter impacto no mercado esta semana. Segundo especialistas, quem permanecer na Bolsa deve se proteger e o melhor caminho está nas carteiras recomendadas por corretoras, que assumiram um perfil defensivo em agosto. São basicamente papéis de empresas concessionárias de serviços públicos e que distribuem uma boa parcela dos lucros aos investidores.
Para Fabio Colombo, administrador de investimentos, os investidores que decidirem ficar devem, sobretudo, pensar na Bolsa a longo prazo, algo como três a cinco anos:
¿ É importante ter em mente esse período e não ter data certa para vender as ações, para não dar azar de precisar sair do mercado na baixa.
Nas carteiras de agosto, os papéis com perfil defensivo mais citados são Telesp (telefonia), Cemig (energia elétrica) e Ecorodovias (estradas). Mesmo esses papéis não escaparam da queda nos últimos dias, ainda que tenham um desempenho melhor do que o resto do mercado. Especialistas recomendam ainda reduzir participação em ações ligadas a commodities, mais dependentes do cenário externo, como Vale, Petrobras, Fibria e usinas siderúrgicas.
Mercado interno segue uma aposta mesmo na crise
Foi o que fez a Planner Corretora em sua carteira de ações. Segundo Rafael Andreata, analista da corretora, saíram das recomendações os papéis da Gerdau e Fibria. No lugar, entraram ações de empresas com melhor previsibilidade na distribuição de lucros.
¿ Estamos bastante cautelosos com agosto. O mercado continua muito volátil e dados da economia americana vão ter impacto. Para quem quer investir com um perfil de médio e longo prazo, vale continuar no mercado ¿ avalia o analista da Planner.
O HSBC também recomenda cautela nas escolhas das ações. Além da redução de papéis ligados a commodities, o banco diminuiu a exposição a instituições financeiras na carteira, neste caso sob temor de medidas de controle de crédito pelo governo afete as empresas do setor.
¿ Outras apostas são em empresas varejistas menos sujeitas ao crédito interno, como Hering e Lojas Renner. São empresas que podem ser menos afetadas num cenário de contração do crédito e turbulência no mundo ¿ afirma Carlos Nunes, estrategista de renda variável do HSBC.
Uma das carteiras mais defensivas do mercado foi montada pela corretora do Santander. São apenas cinco ações, todas boas pagadoras de dividendos: Telesp, Ambev, Souza Cruz, Cemig e Ecorodovias. Uma das preocupações que levaram a corretora a ser mais defensiva se materializou, que foi o rebaixamento do rating dos títulos americanos.
Na carteira da Ágora Corretora, uma sugestão defensiva é o papel da Drogasil: o mercado de remédios é considerado pouco elástico, ou seja, as vendas de medicamentos não costumam registrar queda mesmo em momentos de crise econômica.
¿ Pensamos que julho poderia ter sido um mês melhor para o mercado, mas não foi. E o momento segue de muita cautela ¿ explica José Francisco Cataldo, estrategista de varejo da Ágora Corretora.
A Um Investimentos colocou na carteira apostas um pouco mais ousadas, como algumas outras corretoras também fizeram. É o caso de papéis considerados extremamente baratos como Banco do Brasil e Petrobras. A corretora acredita ainda no potencial de pechinchas, como as ações da Braskem.
Para Eduardo Oliveira, analista da Um Investimentos, a proposta da carteira segue defensiva como um todo, com papéis de concessionárias como Cemig e Ecorodovias.
¿ Nossa carteira não teve grandes mudanças porque o cenário é muito ruim. Não acreditávamos no default dos EUA. Sem o acordo, teríamos partido para o Plano B ¿ explica o analista da Um Investimentos.