Título: Heróis, mas longe do sonho de riqueza
Autor: Tardáguila, Cristina
Fonte: O Globo, 05/08/2011, O Mundo, p. 30
Um ano depois, mineiros chilenos que passaram 69 dias soterrados sofrem com desemprego e problemas de saúde. Só 8 dos 33 vivem da fama
cris.tardaguila@oglobo.com.br
José Ojeda, autor da famosa mensagem ¿Estamos bien en el refugio los 33¿, toma remédio seis vezes por dia por indicação psiquiátrica. Jimmy Sánchez não suporta ficar no escuro. Dos 33 mineiros, que em 5 de agosto do ano passado foram soterrados por um deslizamento de terra, permanecendo 69 dias a 700 metros de profundidade numa mina no Chile, 15 estão desempregados e com problemas financeiros, e sete sob licença médica. Um ano depois, poucas cerimônias marcam o aniversário do episódio, enquanto os mineiros ainda aguardam serem indenizados.
Um culto ecumênico hoje na pequena Copiapó (capital da Região do Atacama) celebra um caso que até hoje é tratado com um misto de tragédia e milagre. Um deslizamento maciço de terra ¿ um volume equivalente ao de 150 Titanics ¿ manteve os 33 homens soterrados numa mina de cobre e ouro no deserto. Foram trazidos de volta em 13 de outubro numa cápsula, a Fênix II, com lugar para uma só pessoa de cada vez, e que será mostrada numa exposição a ser aberta hoje, no único museu da cidade. Na exposição, o presidente Sebastián Piñera devolverá a Ojeda o bilhete enviado por uma sonda e que serviu de prova de que o grupo estava vivo. Com a popularidade em baixa, contará com um forte esquema de segurança.
¿ Não há o que comemorar ¿ diz ao GLOBO Brunilda González, prefeita de Caldera, onde fica a mina San José. ¿ Não faremos nada na cidade, nem na mina, que continua fechada por ordem da Justiça. Não há o que celebrar. Nenhum dos mineiros foi ressarcido.
Os problemas financeiros que os mineiros enfrentam provam que o alardeado enriquecimento que supostamente experimentariam não passou de um sonho. Pelo menos, por enquanto. Oito enveredaram pelo mundo das palestras motivacionais após serem eleitos heróis de 2010 pela CNN. Estimulados pelo sucesso da dupla Mario Sepúlveda e Omar Reygadas, que descobriu o filão e têm um representante nos EUA, os mais articulados vão de empresa em empresa falar da importância de manter a esperança, de lutar por um objetivo e outras pérolas do universo da autoajuda.
Quatro voltaram à mineração: alegam que só nas minas sabem exercer uma tarefa profissional com propriedade. Continuam, no entanto, apavorados pelo passado e com pesadelos. Três viraram feirantes. Com o dinheiro que receberam de presente de um empresário minerador compraram caminhonetes e passam os dias atrás de bancas de frutas e verduras. Outros fazem pontas em programas na TV, e José Henriquez, o pastor do grupo, escreveu ¿Milagro en la mina¿, que será lançado em espanhol e inglês.
¿ A vida vai bem, mas não está fácil ¿ diz Reygadas ao GLOBO, por telefone. ¿ É verdade que ganho com as palestras, mas pago minhas contas com o aluguel dos oito quartos que tenho em casa. Poucos mineiros conseguiram manter a fama.
História deve gerar filme e novo livro
Reygadas foi uma espécie de líder dos 33 durante os primeiros meses pós-resgate. Centralizava em casa o recebimento dos presentes que vinham de todas as partes do mundo. Hoje conta que nenhum dos mineiros recebe mais tênis, roupas, óculos escuros ou uniformes de times de futebol.
¿ Estou contente por estar vivo, mas triste porque nossa história não serviu para mudar a realidade do mineiros do Chile ¿ desabafa. ¿ Ainda há muitas mortes nas minas.
Responsáveis por um terço da produção mundial de cobre, as jazidas do Chile rendem cerca de 5,5 milhões de toneladas de minério por ano. O cobre é o principal produto da balança comercial chilena e corresponde a 50% das exportações.
Na última semana, o advogado Edgardo Reinoso, que representa 31 dos 33 mineiros, entrou com uma ação civil contra o Estado. Alega que o governo também é culpado por não ter fiscalizado a mina corretamente. A ação se soma a outra, trabalhista, contra os proprietários. Se vencerem, os mineiros receberão US$1 milhão cada um.
Ainda podem enriquecer com o filme e o livro que nascerão de suas histórias. O grupo acaba de vender ao produtor Mike Medavoy, da Orion Pictures, os direitos cinematográficos da epopeia e a Hector Tobar, prêmio Pulitzer em 92, os direitos literários.
¿ A ideia é revelar os segredos do que viveram na mina ¿ conta o advogado Fernando García, que liderou as negociações. ¿ Não haverá censura.
Logo após o resgate, a imprensa chilena aventou a possibilidade de alguns terem cogitado suicídio e canibalismo ou tido relações homossexuais. Os mineiros nunca comentaram o assunto.
Na semana passada, a editora Nova Fronteira lançou no Brasil ¿Os 33¿, do jornalista americano Jonathan Franklin, correspondente do ¿Guardian¿. A obra foi traduzida para 19 línguas e vendeu mais de 100 mil cópias.
¿ Gosto de dizer que esse é o anti-11-de-Setembro. Depois das Torres Gêmeas, a história dos mineiros é aquela com final feliz que, há tempos, todos esperávamos ¿ explica Franklin.