Título: Investidor volta a buscar dólar como refúgio e moeda sobe para R$1,581
Autor: Neder, Vinicius
Fonte: O Globo, 05/08/2011, Economia, p. 23
É a maior cotação em 3 semanas. Analistas veem acirramento da guerra cambial
RIO e SÃO PAULO. No novo dia de pânico nos mercados internacionais, o dólar comercial voltou ontem a ser o principal porto seguro de investidores contra a turbulência global, apesar dos temores de uma nova recessão na economia americana e o recente impasse sobre o limite da dívida do país. No Brasil, o dólar comercial fechou em alta de 1,15%, para R$1,581, maior cotação em três semanas. O dólar também avançou frente a euro (1,64%), libra (1,04%) e peso mexicano (1,97%).
Mesmo com a alta da moeda ontem, economistas veem uma intensificação da guerra cambial entre países, com bancos centrais adotando mais barreiras para tentar conter a desvalorização do dólar, que continua em tendência de baixa em médio e longo prazos.
- Quando a poeira baixar e os EUA adotarem mais medidas de estímulo monetário, a moeda vai enfraquecer - avalia Solange Srour, economista-chefe da BNY Mellon no Brasil.
Ontem de manhã, o câmbio chegou a subir 1,40% com a maior procura pela moeda no mercado. Segundo operadores, a demanda foi de bancos, que apostam na valorização do real no mercado à vista. Segundo Devis Ribeiro, da Fair Corretora, pela manhã chegou a falta vendedores de dólares para casar as operações.
- Não foi nada parecido com o que vivemos na crise de 2008, mas sem dúvida foi um dia de crise e de maior procura por dólar - disse Ribeiro. - Os bancos correram para desmontar suas posições e estancar eventuais perdas.
No mercado futuro de câmbio, os contratos com vencimento para agosto fecharam ontem em alta de 1,23%, a R$1,592. Já os contratos com vencimento em janeiro de 2012 avançaram 1,22%, a R$1,639.
Para economistas, medidas contra o dólar são paliativas
Ontem, o BC da Turquia cortou o juro básico e disse que vai começar a vender dólares para tentar proteger a lira, que acumula uma desvalorização de 13,56% nos últimos 12 meses.
Na última quinta-feira, as medidas de controle do câmbio, que eram concentradas em países emergentes, foram também adotadas por Suíça e Japão. O franco suíço, lastreado em reservas de ouro de seus bancos, acumula valorização de 37,89% nos últimos 12 meses. O iene sobe 9,35% no período.
Para economistas, o esforço de bancos centrais pode ser apenas um paliativo. O dólar só conseguiria se recuperar quando a economia americana desse sinais de expansão, o que não ocorreu nos últimos meses.
O economista Rafael Martelo, da Tendências Consultoria, diz que o mercado tenta encontrar outros ativos de investimento, mas não consegue fazer o dólar perder status de reserva.
- Pode haver uma tentativa de substituição, como está ocorrendo com o franco suíço. Mas isso funciona no curto prazo. Ninguém sabe se essa moeda poderá ser um porto seguro - afirmou Martelo.
Para Roberto Padovani, do Banco WestLB, há algumas tentativas tanto no exterior quanto no Brasil de suavizar a apreciação das moedas locais, mas ele acha difícil um grande êxito. Segundo ele, não há neste momento uma moeda alternativa ao dólar e qualquer mudança nesse sentido ocorrerá apenas no longo prazo.
O professor de economia da FGV Samy Dana disse que as medidas dos bancos centrais são paliativas e já se discute a criação de uma cesta de moedas, que incluiria, além do dólar, o euro e o iene, por exemplo. Essas moedas dariam um novo parâmetro para o comércio internacional. Para Dana, o franco suíço está sendo procurado neste momento pelos investidores porque o país concentra um volume grande de recursos. Mas a moeda não teria estatura para se tornar referência no mundo, porque a Suíça não tem uma economia de produção muito robusta.
- Apesar da crise, os Estados Unidos ainda são os maiores agentes da economia mundial. Eles são responsáveis por grande porcentagem de exportação e importação no mundo. Somente no longo prazo, o dólar pode perder a força que tem atualmente - disse o professor da FGV.