Título: De volta à crise
Autor: Neder, Vinicius
Fonte: O Globo, 05/08/2011, Economia, p. 23

Bolsas despencam no mundo. São Paulo e Nova York têm a maior queda desde 2008

Os mercados internacionais tiveram ontem o pior dia desde a crise financeira de 2008, com quedas nas principais bolsas. O Ibovespa, índice de referência da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), despencou 5,72%, a segunda pior queda entre 92 índices de ações acompanhados pela agência Bloomberg News - atrás apenas da Argentina - e a maior baixa desde 21 de novembro de 2008. O índice fechou aos 52.811 pontos, o pior nível desde 17 de julho de 2009, quando se recuperava das perdas com a crise de 2008. Com isso, apenas ontem, as empresas listadas na Bovespa perderam US$82,9 bilhões em valor de mercado, o equivalente ao valor da fabricante de bebidas AmBev. O dólar comercial fechou em alta de 1,15%, a R$1,581.

O pânico se espalhou nos mercados mundiais diante dos sinais de que a economia global, com os EUA à frente, está se recuperando muito lentamente e pode até se retrair. Há ainda a preocupação com a crise na zona do euro. Com menos crescimento no mundo, a demanda futura por matéria-primas tende a cair. Foi o que fez ontem a Bolsa paulista sofrer tamanha queda: as empresas ligadas a commodities, que têm grande peso no Ibovespa, tiveram forte desvalorização. Além disso, a aversão generalizada ao risco faz os mercados emergentes, considerados mais arriscados, perderem mais.

- Por causa do perfil de país emergente, o Brasil perde mais em dias de fuga generalizada - diz William Castro Alves, analista da XP Investimentos.

Cotações de ouro e petróleo cedem

Ontem, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, disse que a instituição ainda atua para garantir liquidez aos mercados, o que, para analistas, mostra que a crise é grave.

Na Europa, os principais índices fecharam com quedas expressivas: Londres perdeu 3,43%; Paris, 3,90%; e Frankfurt, 3,40%. Em Milão, o tombo foi de 5,16%. No fim do dia, as perdas em Nova York se aceleraram, com o Dow Jones registrando a maior queda desde outubro de 2008: 4,31%. O S&P 500 caiu 4,78%, e o Nasdaq, 5,08%. Os índices zeraram seus ganhos do ano. A Bolsa de Tóquio abriu em queda de 3,8% hoje, tendo atingido seu menor patamar desde o terremoto, em março.

Embora avalie que é cedo para falar de uma nova recessão global, o economista-chefe do banco Santander, Maurício Molan, diz que os preços dos ativos começam a levar em conta o aumento dessa probabilidade, graças à fragilidade política e econômica na Europa e nos EUA.

- Há dois problemas antagônicos a resolver: fazer ajustes fiscais drásticos e, ao mesmo tempo, recuperar o crescimento desses países. O mundo tenta precificar esse novo cenário adverso.

Assim como na quarta-feira, o efeito manada aprofundou as perdas na Bovespa. Ao vencer resistências técnicas - patamares mínimos que acionam mecanismos de stop-losses (ordens automáticas para vender ativos) -, a baixa se acelera ainda mais.

Com os investidores se desfazendo de ativos de risco, o volume de negócios na Bovespa ficou em R$9,7 bilhões, muito acima da média diária de julho, de R$5,69 bilhões.

Para o gestor de renda variável da Yield Capital, Hersz Ferman, a reação dos investidores na Bovespa pode ter sido exagerada. José Francisco Cataldo, estrategista de varejo da corretora Ágora, concorda:

- Em termos de fundamentos, nada explica perda tão elevada.

O barril do petróleo tipo Brent, negociado em Londres, caiu 5,28%, a US$107,25. Em Nova York, o barril do leve americano desabou 5,77%, a US$86,63. Já o ouro, que vinha registrando recordes diários durante o impasse sobre a elevação do teto da dívida nos EUA, recuou ontem 0,4%, a US$1.656,20 a onça-troy (31,1g).

As ações preferenciais (PN, sem direito a voto) da Petrobras caíram 7,36%, a R$20,65, e as ordinárias (ON, com voto) perderam 7%, a R$22,97. Os papéis PN da Vale recuaram 5,39%, a R$41,26, e os ON, 5,77%, a R$45,10. A maior queda do Ibovespa foi a MMX, mineradora de Eike Batista: 16,07%, a R$6,11.

- O Brasil não é uma ilha e responde ao estresse global. O mundo ainda depende das economias desenvolvidas - diz o diretor de varejo da Ativa Corretora, Álvaro Bandeira.

COLABOROU Mariana Durão