Título: Banco Central Europeu adota medidas anticrise
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Fonte: O Globo, 05/08/2011, Economia, p. 25

Autoridade monetária age para aumentar a liquidez. Bruxelas se mobiliza para acelerar plano de resgate da moeda

BRUXELAS e MADRI. O Banco Central Europeu (BCE) retomou ontem a compra de títulos dos governos da zona do euro e a oferta de empréstimos a bancos da região numa tentativa de diminuir a tensão nos mercados financeiros. As medidas de intervenção do BCE foram anunciadas no mesmo dia em que a autoridade monetária decidiu manter sua taxa de juros em 1,5%. A decisão, que já era esperada, segue duas altas no custo de empréstimo ocorridas este ano - a mais recente em julho - e ocorre depois da divulgação de relatórios econômicos indicando que o ritmo da economia dos 17 países do euro está diminuindo lentamente, devido ao alerta dos investidores em relação aos níveis de endividamento de Espanha e Itália, o que põe em risco a confiança na economia.

O presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, fez o que se esperava. Se por um lado deixou inalteradas as taxas de juros, por outro enviou mensagens com o objetivo de aliviar a pressão sobre Espanha e Itália. Ele anunciou que a autoridade monetária vai aumentar a liquidez - com o leilão, com volume ilimitado, de títulos de seis meses - para garantir a estabilidade do sistema financeiro. Além disso, confirmou que o programa de compra de títulos de países com problemas está em andamento.

- Já verão como vamos atuar neste sentido. Não me surpreenderia se antes do fim desta entrevista coletiva vocês virem algo nos mercados - disse.

As palavras de Trichet tiveram impacto imediato, mas efêmero. No da dívida, os prêmios de risco caíram, sobretudo os da Itália, enquanto na renda variável as perdas ficaram mais moderadas frente aos números que antecederam a fala de Trichet. No entanto, minutos depois, as taxas de risco recuperaram a tendência de alta - exceto a irlandesa - e as perdas aumentaram.

As medidas extraordinárias de liquidez foram pensadas para aliviar os bancos e ajudar a estabilidade na zona do euro. Mas o fato de o próprio BCE admitir de maneira tão evidente que o futuro próximo se mostra complicado reavivou os temores dos investidores frente a uma desaceleração internacional.

Quando a crise da zona do euro explodiu, em maio do ano passado, o BCE lançou um programa sob o qual adquiriu 74 bilhões em títulos emitidos pelos governos grego, irlandês e português. Este programa, porém, estava inativo desde março. E, enquanto Trichet falava, investidores diziam que o BCE comprava títulos dos governos português e irlandês.

"É mais um bando de meias medidas que vêm da Europa de novo. Por que comprar da Irlanda e de Portugal?", questionou um investidor, segundo o jornal "Financial Times".

Mas a mobilização europeia vai além do BCE. Os líderes da União Europeia acabaram ontem com a letargia do período de férias e mantiveram uma série de contatos para conter os ataques especulativos que têm Espanha e Itália como alvo principal.

O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, pediu à zona do euro que acelere as medidas adotadas na última reunião de cúpula, pensadas inicialmente para salvar a Grécia, mas agora necessárias para frear as pressões sobre todos os países mais fracos da união monetária. Esse pedido, expressado em carta enviada aos dirigentes dos 17 países do euro, reflete a incapacidade da UE para adotar decisões eficazes, além de tentar dar sinais de confiança.

"Os desenvolvimentos nos mercados de títulos soberanos de Itália, Espanha e outros Estados-membros da zona do euro são motivo de uma profunda preocupação", afirmou Barroso na carta, acrescentando, que a crise da dívida já não se limita "à periferia da zona do euro".

A reação de Barroso foi tornada pública um dia depois de uma conversa telefônica dele com o presidente do governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, que pediu ao português que lançasse uma mensagem do tipo.

A insistência em agilizar o acordado na cúpula de 21 de julho revela as dificuldades de aplicação de decisões europeias. A UE dotou o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira de 440 bilhões para que possa comprar títulos da dívida pública dos países com problemas no mercado secundário. Esse fundo de resgate também poderá refinanciar instituições financeiras, garantir a dívida dos países resgatados e oferecer créditos aos que tiverem problemas. Mas, para que entre em vigor, o acordo deve passar por dois procedimentos: a definição do fundo e de seu funcionamento e, em seguida, ser referendado pelos Parlamentos dos 17 países do euro.