Título: Esvaziado e insatisfeito, Jobim morreu pela boca
Autor: Damé, Luiza; Jungblut, Cristiane
Fonte: O Globo, 05/08/2011, O País, p. 3
Ele sentia falta do poder que tinha com Lula e nunca se deu bem com Dilma
BRASÍLIA. Gaúcho vaidoso de temperamento difícil como a presidente Dilma Rousseff, o ex-ministro da Defesa Nelson Jobim tinha tudo para ficar até a primeira reforma ministerial, prevista para abril de 2012: tinha boa aceitação na tropa e vinha comandando bem as articulações para aprovação, no Congresso, da criação da Comissão da Verdade, além de ter, na coluna de créditos, o bom desempenho na administração do caos aéreo, em 2007. Mas, como resumiu ontem uma fonte do Planalto, "tem um ego do tamanho do seu corpo e morreu pela boca".
Na formação do governo, em dezembro, o ex-presidente Lula defendeu sua permanência à frente da Defesa. Por não ter outro nome para a pasta, Dilma acabou aceitando. Mas os dois nunca conseguiram estabelecer convivência cordial e sincera. Apesar de saber que ele votara em José Serra em 2010, nunca digeriu muito bem essa opção. Por isso mesmo, o tratamento com Jobim sempre foi frio e distante. Uma forma de ele tentar se aproximar de Dilma foi a nomeação do ex-deputado José Genoino para assessoria da Defesa.
- Ele poderia até continuar na reforma prevista se não tivesse criado atrito e se conseguisse aprovar a Comissão da Verdade. Mas sempre foi um elefante em loja de louças. Na sucessão do PMDB, Lula tentou fazê-lo presidente do partido no lugar de Michel Temer, mas provocou tanta confusão que não deu - relembra o interlocutor do Planalto.
Nelson Jobim chegou ao governo Lula no auge da crise aérea, em julho de 2007, após o acidente da TAM em Congonhas. Comandou a faxina na Infraero, prometendo acabar com as filas e problemas nos aeroportos. Nessa época, passou a ser um dos principais articuladores de crise do governo Lula, e era interlocutor frequente do então presidente.
Jobim ficou mal acostumado e, na gestão Dilma, considerou muito pequeno o espaço destinado a ele pela nova comandante-em-chefe das Forças Armadas. Deixou de ser o prestigiado ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e querido de Lula. Segundo seus companheiros no PMDB, Jobim nunca se conformou e reclamava que o espaço que tinha no governo Dilma era muito pequeno para ele.
- Dilma nunca tomou uísque com Jobim, como Lula. Só discutia com ele assuntos estritamente da pasta. E nunca fez questão de esconder que não gostava dele, que era homem de Lula. Ela não suportava sua pose nas reuniões, sua mania de ditar regras. Era uma antipatia mútua - revelou ontem um amigo de ambos.
Não foi só. Dilma esvaziou o Ministério da Defesa. A primeira trombada foi logo no início do governo, quando a presidente barrou um negócio de cerca de R$10 bilhões para a compra de 36 aviões de combate. O negócio, embalado por Lula no fim de governo, estava praticamente fechado por Jobim com os caças franceses Rafale.
Ela devolveu tudo à estaca zero ao adiar a compra e criar um grupo interministerial para analisar os argumentos da FAB, pró-Gripen sueco, e da Defesa, pró-Rafale francês. Em seguida, outra investida: ao anunciar o contingenciamento de R$50 bilhões no Orçamento de 2011, fez corte de R$4,4 bilhões na Defesa.
Jobim costumava chamar Dilma de "lobisomem"
Nos últimos dois meses, Jobim começou a dar mostras públicas de que não suportaria mais ficar no governo. No aniversário do ex-presidente Fernando Henrique, em homenagem no Senado, fez o polêmico discurso de que estava cercado de idiotas. Foi a Dilma e deu a versão de que se referia a jornalistas.
Mas não explicou outra frase polêmica que muitos têm certeza de que teve endereço certo para a presidente Dilma: "Uma das melhores características de Fernando Henrique era saber se relacionar bem com subordinados, sem nunca levantar a voz". Depois vieram as declarações de voto em José Serra e, por último, os ataques às ministras Ideli Salvatti e Gleisi Hoffmann.
Mas era nas reuniões fechadas que Jobim destilava o rancor. Ele nega, como tem negado todas as últimas declarações. Mas companheiros peemedebistas contam que, nessas reuniões, Jobim chama Dilma de "lobisomem": exerce um cargo, mas só aparece quando quer e para quem quer. Ele também negou.
Em sua passagem pelo STF, Jobim também enfrentou problemas com os colegas pelo estilo ácido. Num momento de constrangimento, quando o ministro Carlos Ayres Britto estreou no tribunal, Jobim implicava com o novato pela sensibilidade de poeta exibida nas sessões. Numa dessas ocasiões, Ayres Britto citou Camões em um julgamento e Jobim ficou irritado.
- Até onde sei, Camões não era jurista! - repreendeu.
- Mas era sábio! - devolveu Ayres Britto.