Título: Marina em movimento
Autor:
Fonte: O Globo, 24/07/2011, Opinião, p. 7

Marina Silva desfiliou-se do Partido Verde, e agora está sem partido e sem mandato. Ela está desencantada com o sistema político brasileiro (só ela?). Quer criar um movimento suprapartidário que instale a política em novas bases, que permita a alguém encantar-se de novo com a proposta de um partido. Você pode dizer que ela é o nosso Dom Quixote. Tudo bem. Ai do mundo quando não houver mais Quixotes.

Nem que fosse só pelo ângulo simbólico, Marina é importante para o nosso quadro político. Ela é necessária sob dois aspectos.

1) ÉTICA. A corrupção está em todas as mentes. Em belo artigo para O GLOBO, Juan Arias indaga por que os brasileiros não estão na rua, como os jovens espanhóis, protestando contra os desmandos. Uma das razões para isso é o que os economistas chamam de "feel good factor" - uma sensação geral de que a vida está melhorando, de que estamos progredindo. E, de fato, o país está crescendo, surge uma animada classe média retirada dos estratos da pobreza - e até os pobres estão menos pobres. Mas se o preço disso é a corrupção do sistema político, no fim do caminho o gosto será amargo.

Um outro fator é essa entidade misteriosa que se chama Lula, e que conseguiu hipnotizar a maior parte do eleitorado. Entrou sorte nesse enredo político; entrou um talento sem par de animal político; e entrou uma sensibilidade para o fato social que arredondou as arestas do modelo fernandista. Daí dois mandatos triunfantes (sobretudo o segundo). Mas o Lula presidente não deu a menor bola para essa história de ética. Ele se formou num caldo de cultura marxista onde os fins justificavam os meios, onde o importante era chegar ao poder. Esse desdém pela ética também é marca registrada dos hiperpragmáticos. Exemplo típico é o de Napoleão, que foi um gênio político e militar, mas viu sua obra desmoronar porque atrás dela não havia um único princípio. Não se pode dizer de Lula que não tenha princípio algum. Mas a maneira como ele tratou os valores democráticos no caso do mensalão não é digna de um político sério. O mau exemplo vindo do presidente espalhou-se por todos os lados. Qualquer ratazana de Brasília acha-se autorizada a fazer o mesmo. E pode-se perguntar quais são os limites da faxina em boa hora iniciada pela presidente Dilma

É neste cenário que Marina parece um peixe fora d"água. Mas se não houver lugar para ela no nosso sistema político, mau sinal.

2) ECOLOGIA. Um estudo do banco Santander diz que o Brasil, em 2015, será a sexta economia do mundo, com um PIB de 4,9 trilhões de dólares. A China será a primeira potência, com 48,9 trilhões, seguida pelos Estados Unidos, com 27,3 trilhões, Índia com 16,4 trilhões, Rússia e Japão. Isto são simples projeções matemáticas, como as que os economistas gostam de fazer. Faltou dizer que o planeta Terra não suportará um crescimento nessas proporções.

Em artigo esclarecedor no "Estado de S. Paulo", Xico Graziano explica que houve, modernamente, índices expressivos de crescimento, que retiraram massas de seres humanos da miséria, apoiados sobretudo na exploração de novas terras, mas que vai chegando ao limite a capacidade de crescimento da agricultura americana ou europeia, para não falar na China, na Índia ou na Austrália. Estudos equilibrados mostram que a humanidade já ultrapassou em 35% a capacidade de sustentação do planeta em termos de água, de energia limpa. Na tão louvada China, há regiões inteiras que já vivem um quadro de desastre ecológico.

Não devíamos, por causa disso, dar um tiro na cabeça, nem ignorar os avanços alcançados em algumas áreas. Mas o conceito de crescimento terá de ser totalmente diferente. Ele teria de ser absolutamente qualitativo, responsável, sabendo para onde vai. Da fase de abundância irresponsável teremos de passar a uma fase de lúcida escassez, de austeridade, como sempre foi pregado pelas grandes religiões. O ser humano não pode mais ser o carrasco da terra. E para anunciar essa política nova, precisaremos de políticos de um outro tipo, que inspirem realmente confiança. Alguma coisa parecida com uma Marina Silva.

LUIZ PAULO HORTA é jornalista.