Título: Com a crise, preços de commodities caem e aliviam inflação no Brasil
Autor: Ribeiro, Fabiana
Fonte: O Globo, 14/08/2011, Economia, p. 30
A esperada subida na cotação do dólar teria efeito menor nos índices
Diante de uma piora do cenário mundial, especialmente devido aos temores de recessão nos EUA, a inflação deixaria de ser a maior preocupação da equipe econômica do Brasil, apostam alguns analistas. Até o mercado já acredita em juros menores no fim do ano, diante de uma inflação mais comportada. Muda a prioridade, alegam. Para muitos, a questão crucial passa a ser o nível de atividade da economia e os investimentos - que podem tirar o país da rota de um crescimento sustentado. E duas variáveis vão dar o tom dos preços: as commodities e o dólar.
De um lado, o que explicaria essa maior "tranquilidade" está no fato de que o acirramento da crise traria uma boa notícia. Com a desaceleração da economia mundial - intensificada pela estagnação na economia americana e da crise da dívida na zona do euro - a expectativa é de que os preços das commodities (produtos básicos com cotação global, como petróleo e soja) caiam - ou até despenquem, num cenário mais pessimista. Como o valor dos produtos que consumimos está fortemente ligado às cotações de seus insumos - se o preço da soja cai no mercado internacional, o preço do óleo de soja recua tempos depois no supermercado - é de se esperar que a inflação dê um alívio. Tanto que, para muitos analistas, o BC já poderia sinalizar ao mercado uma mudança na trajetória da Selic, atualmente de alta, a despeito da inflação elevada. Em 12 meses, o IPCA, índice oficial do governo, está em 6,87%, acima até do teto da meta de 6,5%.
Por outro lado, não há um consenso no mercado a respeito do dólar: há analistas que projetam um câmbio a R$1,50 e, na outra ponta, a R$1,70. Dólar mais alto tende a jogar os preços aqui para cima. Mas, em caso de uma alta, as commodities - em baixa - compensariam esse movimento e a inflação poderia estabilizar nos próximos meses.
- A prioridade do governo mudou. O importante agora é não deixar cair o nível de atividade. Mesmo porque a inflação para esse ano já está dada - resumiu Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central e atual chefe da Divisão Econômica da Confederação Nacional do Comércio (CNC), acrescentando que taxas de juros mais baixas no mundo e investimentos em desaceleração no Brasil são motivos para cortar os juros em breve.
Tom da crise vai ser dado, em grande parte, pela China
Segundo Antônio Correa de Lacerda, professor da PUC--SP, o maior desafio da equipe econômica está em como não importar os efeitos da crise global. Reduzir os depósitos compulsórios dos bancos seria, para ele, uma alternativa para não baixar a bola do consumo.
- A expectativa é de uma alívio na inflação, bem como uma certa desvalorização no câmbio. E tudo isso abre espaço para uma redução nos juros.
Eduardo Velho, economista-chefe da Prosper Corretora, acredita que os preços das commodities podem desacelerar em resposta a uma economia mundial com menor dinamismo - o que garante um melhor cenário para o controle da inflação. Mas, frisou ele, esse recuo dos preços não deve vir com a mesma intensidade de 2009.
- O tom dessa crise vai ser dado, em grande parte, pela China, maior importador de commodities agrícolas do mundo.
Na avaliação de Luis Otávio Leal, economista do ABC Brasil, o mundo será mais inflacionário. Ele lembra o fato de que o FED (banco central americano) apontou que será mais complacente com a inflação até 2013.
- Nesse momento, não existe uma crise financeira. Então, o grande desafio do BC continua sendo a inflação. Mas o retrato inflacionário do mundo vai depender muito da China. No cenário atual, não descarto que a China continue a crescer, então, a inflação não cederia tanto assim. Um componente importante para dizer se a inflação sobe ou desce é a China.