Título: Contágio de más ideias
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Fonte: O Globo, 12/08/2011, Opinião, p. 6

A Grande Recessão de 2008 se transformou na Recessão do Atlântico Norte: são principalmente a Europa e os EUA, não os principais mercados emergentes, que ficaram atolados em baixo crescimento e alto desemprego. E são a Europa e os EUA que marcham para o desenlace de um grande debacle. Uma bolha arrebentada levou a um maciço estímulo keynesiano que evitou uma recessão ainda mais profunda, mas que também impulsionou déficits orçamentários substanciais. A resposta ¿ cortes maciços de gastos ¿ assegura que níveis inaceitavelmente altos de desemprego (um amplo desperdício de recursos e um excesso de oferta de sofrimento) continuarão, possivelmente por anos.

A União Europeia finalmente se comprometeu a ajudar seus membros em apuros. Não tinha escolha: com a turbulência financeira ameaçando se espalhar de pequenos países, como Grécia e Irlanda, para nações maiores, como Itália e Espanha, a própria sobrevivência do euro estava em risco crescente. Os líderes europeus reconheceram que as dívidas dos países em agonia se tornariam intratáveis a não ser que suas economias pudessem crescer, e que esse crescimento não poderia ser atingido sem assistência.

Mas, enquanto os líderes europeus prometiam que a ajuda estava a caminho, eles mantinham a crença que os países não atingidos pela crise deveriam cortar os gastos. A austeridade resultante vai atrasar o crescimento da Europa e, assim, o de suas economias mais desesperadas: afinal, nada ajudaria mais a Grécia do que um crescimento robusto de seus parceiros comerciais. E baixo crescimento vai reduzir as receitas tributárias, minando o proclamado objetivo da consolidação fiscal.

As discussões antes da crise ilustraram o pouco que fora feito para reparar os fundamentos econômicos. A veemente oposição do Banco Central Europeu ao que é essencial a todas as economias capitalistas ¿ a reestruturação da dívida de entidades falidas ou insolventes ¿ evidencia a contínua fragilidade do sistema bancário ocidental.

O Banco Central Europeu (BCE) argumentou que os contribuintes devem arcar com o custo dos títulos podres da dívida grega, por medo de que alguma participação do setor privado no resgate de países possa deflagrar um calote (credit event) que forçaria grandes resgates de CDS (títulos de seguro contra insolvências), provocando uma futura crise financeira. Mas, se isto for um medo real do BCE ¿ se não estiver meramente agindo em nome de emprestadores privados ¿, certamente deveria ter exigido que os bancos elevassem o capital.

Da mesma forma, o BCE deveria ter impedido os bancos de atuar no arriscado mercado de CDS, onde são feitos reféns de decisões das agências de classificação de risco sobre o que constitui um calote. Sem dúvida, um avanço positivo dos líderes europeus no recente encontro em Bruxelas foi iniciar o processo de controle do BCE e do poder das agências de risco americanas.

De fato, o aspecto mais curioso da posição do BCE foi sua ameaça de não aceitar títulos da dívida reestruturada de governos como colateral se as agências decidirem que a reestruturação deve ser classificada como calote. Reestruturar é perdoar parte da dívida para tornar o restante mais manejável. Se os títulos fossem aceitos como colateral antes da reestruturação, certamente seriam mais seguros depois dela, e assim igualmente aceitáveis.

O episódio serve para lembrar que os bancos centrais são instituições políticas, com uma agenda política, e que os bancos centrais independentes tendem a ser capturados pelos bancos que supostamente deveriam regular.

As coisas são pouco melhores do outro lado do Atlântico. Lá, a extrema direita ameaçou fechar o governo americano, confirmando o que a teoria do jogo sugere: se os que se comprometem irracionalmente com a destruição se confrontam com indivíduos racionais, os primeiros prevalecem.

Como resultado, o presidente Barack Obama aquiesceu a uma estratégia de redução da dívida desequilibrada, sem aumento de impostos ¿ nem mesmo para o milionário que ganhou tanto dinheiro nas últimas duas décadas, sem nem mesmo eliminar brechas tributárias que beneficiam companhias de petróleo, que solapam a eficiência econômica e contribuem para a degradação ambiental.

Otimistas argumentam que, no curto prazo, o impacto macroeconômico do acordo para elevar o teto do endividamento e impedir o calote será limitado ¿ cerca de US$25 bilhões no próximo ano. Mas o corte do imposto sobre a folha de pagamentos (que coloca mais de US$100 bilhões nos bolsos dos americanos comuns) não foi renovado e certamente empresas, antecipando os efeitos contracionistas lá na frente, ficarão ainda mais relutantes em emprestar.

O fim do próprio estímulo é contracionista. Com os preços de moradias ainda em queda, e o desemprego permanecendo teimosamente alto (um em cada seis americanos que gostariam de um emprego em tempo integral ainda não podem obtê-lo), é necessário mais estímulo, não austeridade ¿ para efeito de equilibrar o orçamento. O mais importante item isolado para o crescimento do déficit é fraca receita tributária, devido ao fraco desempenho econômico; o melhor remédio seria fazer os EUA funcionarem de novo. O recente acordo sobre o endividamento é um passo na direção errada.

Houve muita preocupação sobre contágio financeiro entre Europa e EUA. Afinal, os problemas de gerenciamento financeiro dos EUA tiveram papel importante para ativar os problemas na Europa, e turbulência financeira na Europa não seria bom para os EUA ¿ principalmente dada a fragilidade do sistema bancário americano e sua contínua atuação nos pouco transparentes CDSs.

Mas o real problema vem de outra forma de contágio: más ideias se movem facilmente através das fronteiras, e noções econômicas erradas dos dois lados do Atlântico têm se reforçado mutuamente. O mesmo acontecerá com a estagnação que essas políticas acarretam.

JOSEPH E. STIGLITZ é Prêmio Nobel de Economia e professor da Universidade de Columbia, nos EUA.