Título: Dilma: país ainda tem um Chile de miseráveis
Autor: Lins, Letícia
Fonte: O Globo, 26/07/2011, O País, p. 5

Presidente vai ao Nordeste lançar Brasil sem Miséria e promete manter estabilidade da economia e geração de empregos

ARAPIRACA (AL). A presidente Dilma Rousseff afirmou ontem que, embora o Brasil já tenha resgatado uma Argentina da miséria, ainda é preciso tirar um Chile da extrema pobreza. Durante o lançamento, na Região Nordeste, de iniciativas do Plano Brasil Sem Miséria, ela informou que o governo pretende incluir 800 mil pessoas no Bolsa Família, além de 145 mil idosos e deficientes físicos que precisam de benefícios de prestação continuada. Dilma já anunciara o plano em Brasília, no mês passado.

- Se a gente considerar os estudos da Fundação Getulio Vargas, que colocam de 2003 a maio de 2011 a elevação de 39,5 milhões de brasileiros à classe média, equivale dizer que o Brasil retirou da condição de pobreza quase 40 milhões de brasileiros, uma Argentina (...). Ainda restam 16 milhões. Não é uma Argentina, mas um Chile, com 16 milhões, que temos que tirar da miséria - disse Dilma para uma plateia que incluía governadores do Nordeste e sete ministros.

Plano prevê a construção de 700 mil cisternas

No final do encontro, ela afirmou que manterá a estabilidade da economia e a geração de empregos:

- Seremos capazes de defender a economia brasileira das ameaças externas e internas, inclusive da ameaça da inflação.

Entre as ações previstas no plano de combate à miséria, está a construção de 700 mil cisternas no semi-árido em 2012, que deverão chegar a 750 mil em 2014. Dilma também anunciou uma acordo de comercialização da produção de agricultura familiar com os supermercados. A presidente pediu à população que priorize esse tipo de alimento, ao fazer suas compras:

- Se brasileiros e brasileiros se dispuserem, de fato, a encarar esse mesmo desafio, que é ultrapassar a extrema miséria em nosso país, poderão contribuir escolhendo esses produtos nas gôndolas. Poderão participar, usando o seu poder de compra, privilegiando essa agricultura.

Depois de ter se reunido publicamente com governadores da região - apenas Roseana Sarney (MA) não compareceu -, Dilma foi a um ginásio, onde a aguardava uma multidão de lavradores, a maioria usando chapéus de palha. Militantes do MST aproveitaram a presença da presidente para fazer um protesto. Abriram uma faixa pedindo o fortalecimento do Incra e gritaram palavras de ordem como "sem reforma agrária não acaba a miséria".

Mais descontraída do que no encontro com os governadores, Dilma voltou a fazer comparações com o Chile e a Argentina. Afirmou que só assim é possível ser ter a dimensão do trabalho do governo contra a pobreza. E elogiou seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, ao dizer que ele foi o primeiro a incluir os pobres em todas as prioridades de governo:

- Fui eleita para continuar o projeto de Lula. Eleita com a convicção de que o Brasil vai continuar dando importância, atendendo e acolhendo as pessoas mais pobres do país. Esse programa mostra como o Brasil mudou. Antes, quando se olhava para os pobres, achava-se que a culpa de ser pobre era deles. Hoje, quando se dá oportunidade, ele agarra com as mãos e muda a sua vida e de seus filhos - afirmou a presidente.

Servidores de Pernambuco e Alagoas protestam

Dilma não viu outro protesto organizado durante sua visita a Arapiraca, realizado por servidores das universidades, que ficaram diante da sede da Associação Atlética do Banco do Brasil (AABB), onde ela lançou o plano contra a miséria. Com uma boneca gigante, chamada de "Dil má", os servidores promoveram um apitaço, usando até cornetas de brinquedo. Do interior da AABB era possível ouvir o barulho, que durou cerca de uma hora e meia.

Os servidores de universidades de Pernambuco e Alagoas pediam cursos de qualificação e reajuste salarial. "A greve continua, governo, a culpa é sua", era uma das palavras de ordem. Em coro, ainda gritaram "Dilmá que horror, tem dinheiro prá banqueiro, mas não tem pra servidor".