Título: Uma primavera inquietante
Autor: González, Enric
Fonte: O Globo, 29/08/2011, O Mundo, p. 25

HOMENS FAZEM manifestação em Washington diante de um cartaz com caricaturas de ditadores do Oriente Médio, entre eles Kadafi

As grandes revoluções são um espetáculo desagradável. São longas, sangrentas e de final incerto. Por enquanto, o fenômeno histórico que alguém batizou de Primavera Árabe exibe todos os atributos revolucionários. Com uma característica extra que o torna especialmente inquietante para a Europa: ocorre numa região de vital importância geoestratégica para o planeta e num momento em que a população europeia, alarmada com a imigração, a crise econômica e o terrorismo, tende a abraçar ideologias reacionárias. O que em janeiro gerava certa simpatia agora causa ceticismo, medo ou, nos setores mais receptivos ao fenômeno, reações de impaciência. A Primavera Árabe, no entanto, está só começando.

É cedo para avaliar a magnitude do terremoto diplomático, comercial e demográfico, e para prever suas consequências. O que se deduz com clareza é que o livro de referência para interpretar tais acontecimentos não parece ser ¿O choque de civilizações¿, de Samuel Huntington, no qual se anunciava uma era de conflitos permanentes entre o Ocidente e o Islã, mas sim ¿Orientalismo¿, de Edward Saïd. Em sua obra, o ensaísta palestino diz que o Ocidente só é capaz de olhar o mundo árabe através de um caleidoscópio de preconceitos e com um grande complexo de superioridade, numa visão distorcida que, de alguma forma, distorce a visão que os árabes têm de si mesmos.

Cada vez que políticos e comentaristas anunciam uma rápida passagem ¿à liberdade e à democracia¿ (as palavras são sempre essas) ¿ como fez George W. Bush em 2003 referindo-se ao Afeganistão ou como acaba de fazer o britânico David Cameron referindo-se à Líbia ¿ é uma homenagem a Saïd. Tanto o Afeganistão quanto a Líbia jamais tiveram instituições sólidas ou um sistema judicial à margem das tradições clássicas ou uma classe média; e isso torna improvável que se convertam em sociedades do tipo ocidental num futuro próximo. Nesses casos, as palavras ¿liberdade¿ e ¿democracia¿ funcionam como código justificador das intervenções bélicas de tipo neocolonialista, e encobrem tanto o desconhecimento como os interesses pouco confessáveis.

O simples fato de generalizar e de incluir na Primavera Árabe países tão distantes e diferentes como Marrocos, Líbia, Síria, Egito e Bahrein ¿ unidos somente pelo idioma e os governos repressivos ou tirânicos ¿ complica as coisas. E alimenta o preconceito.

Os riscos são muito grandes, tanto para as populações diretamente envolvidas como para seus vizinhos e o mundo em geral. O risco principal não é a guerra, mas a guerra crônica que caracteriza o colapso do Estado ou sua inexistência. E não há uma fórmula que permita deduzir qual país vai fracassar, virar um lugar sem lei, fértil em grupos armados e propício ao terrorismo. A Somália fracassou, mas a Etiópia, ao seu lado e em condições semelhantes, segue em frente.

A Líbia, um invento de meio século atrás cuja população, até a descoberta de petróleo, dedicava-se a vender a sucata militar abandonada por seus invasores, apresenta características semelhantes às da Somália, e isso induz ao pessimismo.

A guerra da Líbia é a primeira da Primavera Árabe, e traz riscos específicos. Pela primeira vez desde a desastrosa invasão do Canal de Suez, em 1956, França e Reino Unido formaram aliança para uma invasão militar no exterior sem a tutela dos EUA, escaldado pelas guerras do Afeganistão e do Iraque e mais disposto a assumir um papel secundário. Sem os bombardeiros franco-britânicos, auxiliados pela estrutura da Otan, Muamar Kadafi continuaria com seus domínios em Trípoli. Mas esse apoio militar, pedido pelos chefes rebeldes, contamina o futuro do país.

O Ministério do Exterior britânico insiste que a intervenção era necessária por razões humanitárias e, sobretudo, para evitar que a crise jorrasse sobre as costas europeias ondas de imigrantes e terroristas. Não existe qualquer garantia de que isso tenha sido evitado. Depois das trapalhadas no Iraque, evita-se falar em petróleo. Mesmo acreditando que o petróleo líbio não tenha sido um fato determinante na atitude de Londres e Paris, quem não interpretará as futuras concessões petrolíferas a companhias britânicas e francesas como uma forma de pagamento? Será possível, nos próximos meses, ficar à margem de uma evolução política previsivelmente caótica? A Líbia concentra tudo o que pode dar errado no processo árabe de mudança.

A Primavera Árabe começou no outono na Tunísia, e é ali onde se permite ter mais confiança de êxito imediato. A crise econômica e a explosão demográfica foram duas das causas da revolta e agora funcionam como base, mas a audácia de certas medidas, como a obrigação de manter a igualdade entre homens e mulheres nas eleições, revela que a mudança é ambiciosa.

Mas bastarão as tímidas reformas aplicadas pelo rei do Marrocos para tirar seu país do terremoto revolucionário? Serão suficientes as promessas do rei da Jordânia? Quanto tempo demorará para a Argélia receber a onda das revoluções nas vizinhas Tunísia e Líbia? Conseguirão continuar imunes o Irã xiita e a Arábia Saudita sunita? O regime sírio cairá em tentação de provocar uma guerra regional para ficar mais tempo no poder? Como reagirá o Iraque à tormenta ao seu redor? O que fará Israel, caso saia do estado de paralisia?

Há muitas perguntas sem respostas. E o calor revolucionário aumenta a cada dia.

ENRIC GONZÁLEZ escreveu este artigo para o ¿El País¿