Título: Na diplomacia, a batalha para descongelar os fundos líbios
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Fonte: O Globo, 25/08/2011, O Mundo, p. 33

Rebeldes ganham adesões e afirmam precisar de US$5 bilhões, mas enfrentam resistências de Venezuela, Nicarágua e África do Sul

SARKOZY COM Jibril, em Paris: França anuncia conferência e apoio ao Conselho Nacional de Transição

NOVA YORK. As forças rebeldes que combatem Muamar Kadafi ontem avançavam também num outro campo: o diplomático. Além de o Conselho Nacional de Transição (CNT) parecer estar mais próximo de obter dois reconhecimentos de peso - China e Rússia -, pode estar mais perto de conseguir acesso a bilhares de dólares em fundos do país congelados no exterior. Os Estados Unidos pediram ontem ao Conselho de Segurança que descongele US$1,5 bilhão em fundos líbios para financiar o governo rebelde. As contas do CNT, no entanto, são mais altas: o conselho afirmou ontem que o país necessita urgentemente de pelo menos US$5 bilhões. Alguns analistas estimam em mais de US$160 bilhões os fundos congelados em vários bancos do mundo.

A delegação americana entregou ontem à ONU um projeto de resolução pedindo a liberação do dinheiro congelado pelo Conselho de Segurança para ser usado em propósitos humanitários. O texto, que pode ser votado hoje ou amanhã, ressalta que a quantia não poderá ser empregada em armas. A medida, no entanto, enfrenta forte resistência da África do Sul, que não é favorável à entrega de uma quantia alta nas mãos dos rebeldes - o governo sul-africano ainda não reconheceu os rebeldes como governo legítimo. Pretória estaria esperando o resultado de uma reunião hoje da União Africana para decidir sua posição sobre os bens líbios.

"Nenhuma parte dos fundos a serem liberados pela resolução poderia ser usada para a compra de armas, equipamento militar não-letal ou qualquer outra atividade relacionada (às Forças Armadas)", diz o texto.

França convida Brasil para reunião sobre a Líbia

Numa ofensiva diplomática, líderes do CNT estavam ontem no Qatar e na França, na tentativa de assegurar recursos para o seu governo. Em Doha, o diplomata Aref Ali Nayed disse que US$5 bilhões são necessários para o pagamento de salários do funcionalismo público e para manter serviços essenciais, como a assistência médica à população. Após se encontrar com representantes ocidentais e de países árabes, Nayed deu indícios de que os rebeldes estavam expandindo projetos anteriormente de curto prazo para incluir ações como retirada de minas terrestres e a recuperação da estrutura petrolífera.

- Não podemos esperar por esse dinheiro - disse o embaixador líbio para os Emirados Árabes Unidos e porta-voz da equipe de estabilização, baseada em Dubai.

Segundo Nayed, se o dinheiro não for liberado no início do próximo mês, o CNT correrá o risco de não conseguir atender às expectativas e necessidades da população líbia - e de angariar o seu apoio.

- Cabe a nós garantir que o CNT terá todo apoio material e moral para levar adiante a sua missão - disse Khaled al-Attiyah, ministro de Cooperação Internacional do Qatar.

A busca de fundos e apoio internacional levou o chefe do governo rebelde, Mahmoud Jibril, a uma viagem à Europa, que começou pela França. Ele se encontrou ontem com o presidente Nicolas Sarkozy, cujo país junto com o Reino Unido têm papel de destaque no apoio aos seis meses de revolta na Líbia.

Durante a visita, a França anunciou que está convocando junto com o Reino Unido uma conferência para discutir como a comunidade internacional pode ajudar a Líbia. Sarkozy afirmou que o Brasil será convidado, assim como Rússia, China e Índia. O encontro será no dia 1º de setembro - curiosamente, o dia em que o golpe que levou Kadafi ao poder completa 42 anos. Jibril, que hoje visita a Itália, afirmou que os combates ainda não terminaram, mas que em breve começará uma outra batalha, desta vez pela reconstrução da Líbia.

- Estamos prontos para continuar as operações militares na Líbia sob a Resolução 1973 da ONU pelo tempo que os nossos amigos líbios precisarem - afirmou Sarkozy ao lado de Jibril.

Chávez defende Kadafi e critica recompensa

Os ventos internacionais parecem soprar a favor dos rebeldes. A China deu sinais de que poderá reconhecer o CNT, ao dizer que sempre viu "um papel importante do conselho na resolução dos problemas da Líbia e que está em contato com ele". Já a Rússia, que também ainda não reconheceu formalmente os rebeldes, lembrou que há, no momento, dois governos no país.

- Se os rebeldes tiverem forças e oportunidades de unir o país para um novo início democrático, naturalmente vamos considerar estabelecer relações com eles - disse o presidente Dmitri Medvedev.

Outros países são mais reticentes. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, criticou o oferecimento de uma recompensa pela captura de Kadafi, um antigo aliado, o que refletiria "uma loucura desenfreada". Para Chávez, o próximo alvo será a Síria.

- O drama da Líbia não está acabando com a queda do governo Kadafi. Está começando - disse. - O que o império ianque e as potências europeias querem é petróleo.

Chávez contou que a embaixada venezuelana em Trípoli fora saqueada. Mais tarde, foi corrigido pelo embaixador Afif Tajeldine. Segundo Tajeldine, fora a residência oficial, e não o próprio prédio da representação diplomática, a ser invadido por grupos armados que roubaram objetos e carros.

- Não deixaram nada na casa e atiraram para o ar - contou o embaixador.

A Nicarágua, por sua vez, disse que poderá estudar o asilo a Kadafi caso isso seja pedido, mas considerou dificuldades, como a própria chegada de Kadafi ao país.