Título: PT sangra para salvar Sarney
Autor: Rothenburg, Denise
Fonte: Correio Braziliense, 20/08/2009, Política, p. 2

Constrangida, bancada petista faz jogo do Planalto e aprova arquivamento de denúncias contra o presidente do Senado. Termina o dia esfacelada e exposta à execração dos oposicionistas

Delcídio (e) com João Pedro: esperança de que o eleitor petista nos estados consiga esquecer o dia de ontem no Senado

O PT cumpriu sua parte no acordo que ontem, em duas horas e meia e três votações, livrou o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), de seis denúncias e 11 representações, e o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), de outras seis. Mas a bancada do partido nunca mais será a mesma. Ela saiu esfacelada, exposta à execração por parte dos oposicionistas, que tripudiaram sobre o voto dos petistas no colegiado. O líder Aloizio Mercadante, que manteve a posição pelo afastamento de Sarney e pela investigação, foi obrigado a ouvir de Pedro Simon (PMDB-RS) que 19 de agosto ficaria conhecido o ¿dia em que o PT abraçou Sarney e Fernando Collor (PTB-AL) e Marina Silva saiu¿ da legenda.

O constrangimento dos petistas Delcídio Amaral (MS) e Ideli Salvatti (SC), os dois que votaram e serão candidatos em 2010, era visível. Ideli, sempre falante e acostumada à primeira fila do plenário e das comissões da Casa, ficou muda e se sentou ao fundo, no canto direito da plateia. Delcídio, duas fileiras à frente de Ideli, também não falou. ¿Os integrantes da bancada no Conselho de Ética se sentiram desamparados pelo seu ainda líder¿, disse Delcídio, dando a senha de que aceitaria de bom grado que Mercadante entregasse o cargo (leia mais na página 3).

O ¿não¿ que os dois deram contra o recurso que pretendia expor Sarney a uma investigação foi responsável pelo placar de 9 a 6 em favor do presidente do Senado em duas votações. Mas foi arrancado a fórceps cinco horas antes da decisão, dentro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), o ¿Planalto provisório¿ do presidente Lula.

Ali, Gilberto Carvalho, o braço direito do presidente, reuniu o presidente do PT, Ricardo Berzoini, o secretário-geral do partido, José Eduardo Cardozo, os líderes petistas no Senado, Aloizio Mercadante (SP), e na Câmara, Cândido Vaccarezza (SP), o do governo, Henrique Fontana (RS), e os três votos no Conselho de Ética, Delcídio, Ideli, e João Pedro (AM).

Gilberto não falou. Mas só o fato de estar presente deixava claro que as palavras de Berzoini tinham o aval de Lula. O presidente petista explicou que entre os votos de opinião no cenário de hoje e o apoio do PMDB com vistas a uma possível aliança em 2010, o partido ficaria com Sarney. Quanto ao povo, o presidente Lula acreditava que não era isso que iria prejudicar o partido na hora de olhar de frente para o eleitor. Berzoini disse estar convencido de que era melhor encerrar tudo agora do que deixar Sarney sangrando, o Senado em chamas, e o PMDB cada vez mais longe do PT.

No Conselho, a oposição votou contra Sarney. O DEM foi claro: ¿Quem tem que salvar Sarney é o PT que é aliado dele¿, cobrou o líder José Agripino (RN). Por isso, o senador ACM Júnior (DEM-BA) preferiu não comparecer, em nome da amizade que une as duas famílias a gerações. O PSDB seguiu o mesmo caminho, mas não deve recorrer (1)mais das representações para o plenário ou Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Até porque, se o governo teve maioria para preservar Sarney terá também para cassar o mandato do senador Arthur Virgílio, que ontem falou no conselho e uniu governo e oposição pela sua absolvição, 15 a 0. Mas o discurso foi apenas para ¿inglês ver¿. O jogo estava combinado, conforme avisou o senador Wellington Salgado (PMDB-MG): ¿Só quero avisar que a sua fala não vai mudar o meu voto e o senhor sabe por que eu estou dizendo isso¿, disse Salgado. Ontem, governo e oposição terminaram empatados. Hoje, começa um novo jogo.

1 - Fim do conselho O próximo capítulo da crise será o futuro do Conselho de Ética do Senado, um tema que entra em pauta todas as vezes em que representações são arquivadas. ¿Esse sistema faliu. Aqui, sempre será assim: independentemente de qual partido seja governo ou oposição, quem tiver maioria não será investigado aqui¿, afirmou o senador Valdir Raupp (PMDB-RO). ¿Se for para continuar como está, é melhor acabar¿, disse o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). Os tucanos pretendem agora renunciar a todos os cargos que ocupam no conselho, um colegiado que, mais uma vez, estará em xeque. Por isso, não será surpresa se hoje algum oposicionista propuser que o presidente Sarney aproveite a reforma administrativa da Casa para acrescentar a extinção do Conselho.