Título: Momento ainda é de rigor monetário
Autor:
Fonte: O Globo, 28/08/2011, Opinião, p. 6

O Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne esta semana envolto em um cenário com prognósticos nada alentadores sobre a trajetória das economias americana e europeias nos próximos meses e anos. Como também já surgiram algumas evidências de desaceleração no ritmo de crescimento da economia brasileira, acredita-se que esse quadro pesará na decisão do Copom de interromper o processo de aperto monetário.

De fato, não é possível ignorar a debilidade das economias mais desenvolvidas e os reflexos dessa anemia sobre os países emergentes. No entanto, embora vários segmentos da indústria brasileira estejam perdendo fôlego diante da concorrência externa, há outros setores da economia do país que permanecem pressionados por uma demanda acima de sua capacidade de oferta. É caso dos serviços, cujos preços vêm subindo bem acima da média - na faixa dos 8% -, conforme se pode observar no detalhamento dos índices de inflação.

Tal pressão tem empurrado os índices de preços ao consumidor para um patamar nada confortável, em torno do teto (6,5%) da meta de inflação estabelecida pelo governo. Até que a inflação recue para percentuais mais próximos do centro da meta (4,5%), o Banco Central provavelmente manterá a política monetária sob rédeas curtas.

Ainda que as taxas básicas de juros estejam em um nível incômodo - e insustentável a médio e longo prazos -, pior será se o Brasil se acomodar com uma inflação anual no teto da meta, sem qualquer margem para acomodar eventuais choques de oferta, de origem doméstica ou externa.

Altas doses de juros têm sido necessárias, infelizmente, para ajustar o crescimento da economia brasileira ao seu potencial, evitando-se desequilíbrios nos preços. É um fenômeno que ainda decorre do longo período de distorções acumuladas pela economia do país, e do qual resultou, por exemplo, a dificuldade de desarmar os mecanismos remanescentes de indexação automática, até hoje não totalmente desativados.

Outra dificuldade é o peso do setor público na economia brasileira. Os gastos públicos - 40% do PIB - são essencialmente de custeio, rotineiros, e de má qualidade, em alta percentagem. Para quebrar essa rotina, sustentada por elevadíssima carga tributária (o que, por sua vez, onera os custos de produção), o país necessita de reformas estruturais, que mexem com interesses e privilégios de segmentos bem organizados da sociedade. A resistência política e corporativa a essas reformas tem sido muito grande, e por isso elas caminham devagar.

Dessa maneira, o esforço para se dominar a inflação acaba se concentrando nas mãos do Banco Central, e a taxa de juros passa a ser o principal instrumento de ataque. Reduzi-la para padrões internacionais é, sem dúvida, um vultoso desafio, que tem sido enfrentado de forma gradual (basta se comparar as taxas atuais com as de cinco, dez anos atrás). Esse esforço teve de ser interrompido por causa do repique da inflação, mas não deixa de ser um alento que o governo esteja cumprindo as metas de superávit primário nas finanças públicas. Se perseverar nesse caminho - mas reduzindo a contribuição ao alcance das metas dadas pelo aumento da arrecadação -, talvez haja condições para, dentro de alguns meses, o Copom baixar um pouco os juros.