Título: Potências apoiam nova Líbia e disputam contratos
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Fonte: O Globo, 02/09/2011, O Mundo, p. 31
Em Paris, países defendem desbloqueio de US$15 bilhões para os opositores de Kadafi e nos bastidores negociam acordos comerciais
PARIS e TRÍPOLI
Representantes das principais potências mundiais manifestaram apoio ao novo governo de fato da Líbia, os rebeldes do Conselho Nacional de Transição (CNT), durante a conferência "Amigos da Líbia", em Paris. Para estabilizar o país após o regime do ditador Muamar Kadafi foi acordado que as operações da Otan, a aliança militar ocidental, continuarão enquanto for necessário a fim de proteger civis. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, apresentou um pedido coletivo à ONU para desbloqueio de US$15 bilhões em recursos líbios congelados em bancos. Nos bastidores, França, Reino Unido e Itália, entre outros, já disputam a exploração das reservas de petróleo e os serviços de reconstrução da Líbia.
A secretária de Estado, Hillary Clinton, disse que o apoio deve seguir por um longo tempo e que o CNT deve ocupar o assento da Líbia na ONU.
- O trabalho não acaba com o fim do regime de repressão. Vencer uma guerra não oferece garantia alguma de manutenção da paz.
O auxílio surgiu em diversas frentes. A chanceler alemã, Angela Merkel, ofereceu ajuda para a reconstrução de hospitais, transporte e força policial. O premier italiano, Silvio Berlusconi, reiterou que seu país já ofereceu à polícia militar um local para treinar as forças de segurança e proteger fronteiras. A União Europeia suspendeu as restrições contra 28 entidades líbias, entre autoridades portuárias, companhias de petróleo e gás e bancos.
- Não podemos arcar com um Estado pária fracassado nas portas da Europa - disse o premier britânico, David Cameron. - Nós vamos perder se a Primavera Árabe der lugar a um inverno cínico de repressão.
Kadafi: "não somos mulherzinhas"
Além de ajudar, as potências veem no país, que antes do conflito exportava 80% de sua produção de petróleo para a Europa, boas oportunidades de negócios. O jornal francês "Libération" apresentou uma suposta carta do CNT de abril em que os rebeldes trocariam o reconhecimento do grupo por um acesso prioritário para a França após o fim do conflito a 35% da produção de petróleo. O governo francês e o CNT disseram desconhecer o acordo, mas o ministro das Relações Exteriores francês, Alain Juppe, afirmou que o CNT já havia dito que daria preferência na reconstrução da Líbia aos países que os ajudaram:
- Esta operação na Líbia é muito custosa. É também um investimento no futuro porque uma Líbia democrática é um país que vai se desenvolver, oferecer estabilidade, segurança e desenvolvimento na região.
O chanceler britânico, William Hague, defendeu uma relação econômica e comercial mais próxima com a Líbia e que as companhias britânicas não seriam "deixadas para trás" das francesas e italianas na busca de novos negócios.
Na reunião que contou com chefes de Estado e enviados especiais de mais de 60 países, a Rússia, um dos críticos à operação da Otan, decidiu reconhecer os rebeldes do CNT como representantes legítimos do país. A Argélia, para onde fugiram a mulher e três filhos de Kadafi, disse que reconhecerá o novo regime líbio quando for instalado um governo representativo. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Amar Belani, afirmou que a Argélia - único país do Norte da África ainda reticente quanto ao CNT - segue, por enquanto, posição de estrita neutralidade, rebatendo as acusações de que o governo argelino estaria apoiando Kadafi. Um porta-voz da União Africana disse que após as promessas feitas pelo presidente do CNT, Mustafa Abdel Jalil, o grupo retomará conversas para o possível reconhecimento do grupo.
O Brasil reiterou que a decisão sobre o reconhecimento do CNT como representante do governo deve ser feita no âmbito da ONU, mas defendeu que as partes envolvidas no conflito deponham as armas. Em nota, disse que "o futuro da Líbia deve ser definido pelos próprios líbios". O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, fez um apelo ao Conselho de Segurança para que decida rapidamente sobre o envio de uma missão de estabilização.
Enquanto os rebeldes aproveitaram o prestígio em âmbito internacional, na Líbia, eles decidiram prorrogar por uma semana o prazo dado aos seguidores de Kadafi em Sirta, cidade natal do ditador, para rendição.
No aniversário de 42 anos de sua chegada ao poder, imagens do ditador careca se espalharam por Trípoli. Kadafi fez duas declarações pela TV nas quais deixou claro que está disposto a lutar até o fim e que a Líbia é alvo da cobiça de potências interessadas em recursos naturais. Com Trípoli ocupada por rebeldes, ele anunciou que Sirta é a nova capital do país.
- Não vamos nos render. Não somos mulherzinhas e vamos continuar lutando - disse. - Deixe que haja uma longa batalha e que a Líbia seja engolida pelas chamas.
O premier de Kadafi, al-Baghdadi Ali al-Mahmoudi, decidiu se aliar aos insurgentes. Segundo o jornal argelino "El Watan", Kadafi teria tentado pedir asilo ao país, mas o presidente Abdelaziz Bouteflika teria se recusado a atender o telefonema.