Título: Juros mais baixos pressionam por cortes
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Fonte: O Globo, 02/09/2011, Opinião, p. 6
Às vésperas da reunião do Copom, O GLOBO noticiou movimentações no Planalto para o BC contrariar a expectativa geral e fazer um corte na taxa básica de juros. E, na terça-feira, quando se iniciava a reunião de dois dias do Conselho de Política Monetária, a presidente Dilma defendeu em público a redução dos juros. Foi o que aconteceu, com a Selic passando para 12%, menos 0,5 ponto percentual, decisão tomada pelo Copom por cinco votos a dois.
O resultado imediato foi a impossibilidade de uma coisa não ser relacionada à outra. O BC, agora, terá de afastar a ideia de que aceitou pressões políticas, abriu mão de alguma (ou de toda) autonomia operacional mantida de forma tácita durante a gestão Lula. Levará tempo, se é que conseguirá. A surpresa foi geral. A revista "The Economist", na edição impressa que começou a circular ontem, registrou o desfecho inesperado da reunião do Copom e exercitou a sutileza britânica ao afirmar que o presidente do BC, Alexandre Tombini, "é mais próximo do ministro da Fazenda (Guido Mantega) que o predecessor, Henrique Meirelles". Espera-se que não haja subordinação.
A nota divulgada pelo BC relaciona a decisão ao quadro externo, devido ao qual haveria uma aceleração no desaquecimento interno. As informações detalhadas estarão na ata da reunião, a ser divulgada semana que vem para leitores atentos e munidos de lupa.
Sinais de arrefecimento na economia de fato existem. O resultado consolidado dos balanços do segundo trimestre das cem maiores empresas de capital aberto aponta nesta direção, segundo o jornal "Valor". O lucro líquido do conjunto delas subiu 13,7%, comparado com mesmo período do ano passado, sendo que no trimestre anterior a alta havia sido de 61,7%.
Dados sobre a produção industrial em julho confirmam o cenário de esfriamento. Mas, em contrapartida, a inflação se mantém alta, acima do limite superior da meta de 6,5%, com destaque para os serviços (9%).
Não há controvérsia é em torno do novo enunciado de política econômica, que altera o mix no uso da política monetária e a fiscal, acionando mais esta última (gastos) do que a primeira (juros). A alteração, anunciada segunda, é acertada. Já passou da hora de se conter de fato o crescimento dos gastos em custeio, para permitir mais investimentos e evitar elevações constantes de juros a fim de frear a economia e a inflação, aceleradas pela gastança. Cada elevação de juros representa mais despesa para o Tesouro.
Se há um ponto positivo na decisão do BC é o de forçar o governo (Ministério da Fazenda) a cumprir de fato a promessa de frear os gastos. Pois, se a inflação não recuar, a Selic terá de voltar a subir, talvez com mais vigor.
Na segunda-feira, embalada em discursos de austeridade, saiu a promessa de mais R$10 bilhões de economia para reforçar o superávit primário até dezembro. Mas anteontem a proposta do Orçamento de 2012 chegou ao Congresso e gerou o primeiro ruído em torno da profissão de fé de controle fiscal: os números indicam um rigor nos gastos aquém do necessário. Ao explicar que metas de despesas não escritas serão perseguidas pelo governo, a ministra do Planejamento, Míriam Belchior, levou a questão para o terreno da credibilidade, o mesmo em que o BC está atolado. Serão necessárias ações concretas para que se tenha confiança nesta crucial mudança de rumo.