Título: Ofensiva para evitar a maior epidemia de dengue
Autor: Costa, Ana Cláudia; Costa, Célia
Fonte: O Globo, 01/09/2011, Rio, p. 14

Prefeito decreta estado de alerta e antecipa medidas para combater doença, como entrada à força em imóveis

"Lamento informar, mas teremos uma epidemia de dengue nesse verão no Rio. A posição hoje é que todos os dados apontam para isso: será a maior epidemia da história da cidade". O aviso do prefeito Eduardo Paes - para um problema que especialistas já vinham alertando desde o início do ano - foi dado ontem, a quase quatro meses da chegada do verão, quando há condições ideais para a proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue. Paes assinou um decreto declarando estado de alerta na cidade e lançou uma ofensiva contra a doença com um pacote de medidas, entre elas a volta do fumacê e a entrada compulsória em imóveis fechados.

No documento, que será publicado hoje no Diário Oficial, Paes estabelece metas de prevenção e assistência à população no período que vai de outubro deste ano até abril do ano que vem. As medidas, segundo o prefeito, são uma forma de enfrentar, preventivamente, o aumento de casos de dengue:

- Temos dois caminhos para trabalhar isso. Chamo para a responsabilidade compartilhada entre a prefeitura e o cidadão no campo da da prevenção.

Dentre as medidas adotadas pela prefeitura está a entrada à força em imóveis cujos proprietários impeçam o acesso do agente controlador de vetores, além de multa no caso de resistência. Também será multado o proprietário do imóvel que não tomar providências para acabar com focos de dengue. Reincidentes também serão punidos. O valor não foi divulgado.

121 óbitos no estado em decorrência da doença

Os números da doença aumentam no mesmo ritmo da preocupação com ela. Mesmo sem uma epidemia declarada de dengue, de 2 de janeiro a 27 de agosto deste ano já foram registrados 121 óbitos no estado - 43 delas na capital. O número é quase a metade das mortes registradas na epidemia de 2008, considerada a mais letal, que atingiu a marca de 255 mortes. Naquele ano foram notificados 120.921 casos da doença no Rio. Este ano, de janeiro a agosto, foram 67.797 registros.

A letalidade da dengue tem aumentado nos últimos anos. Segundo especialistas, isso ocorre à medida em que passam a circular diferentes tipos de vírus. Em 2002, por exemplo, quando foram registrados 145.769 casos no Rio, o número de mortes foi 65, muito menor que em 2008 (156) e apenas 22 casos a mais do que o registrado em oito meses de 2011. Desde o verão passado, a ameaça é a entrada em circulação do vírus 4, ao qual toda a população é suscetível.

Mais rigor em borracharias que têm depósito de pneus

Para atender melhor a população na prevenção da dengue, a prefeitura contará com 3.605 agentes, em 40 carros fumacê e 60 aparelhos pulverizadores portáteis. Esse número, segundo o secretário municipal de Saúde, Hans Dohmann, vai triplicar o número de visitas e inspeções em domicílios.

De acordo com o secretário, cada carro fumacê vai passar quatro vezes por mês na mesma área, percorrendo um raio de 15 a 30km por dia. Os agentes, com macacões amarelos, ficarão baseados em determinadas regiões com cerca de mil imóveis. Toda a administração do programa de combate à dengue funcionará no Centro de Controle da prefeitura.

- A população vai conhecer o agente que está trabalhando próximo à sua casa e ainda vai ter um número de telefone para que donos de imóveis, após identificar o agente através do crachá, possam verificar junto à prefeitura se realmente se tratam de técnicos de combate à dengue - disse o secretário.

Até mesmo responsáveis por ferros-velhos e cemitérios serão chamados para a brigada de combate à doença. Nesse caso, os responsáveis ou donos terão que retirar vasos e recipientes que retenham água. Borracharias serão obrigadas a instalar cobertura fixa se no local houver depósito de pneus.

- Está claro que 82% dos casos de dengue acontecem por conta de criadouros dentro da casa das pessoas. Chamo a população para uma ação conjunta. Nós da prefeitura vamos levar a cabo as últimas consequências para que as pessoas cumpram seu papel - salientou Paes.

Prefeitura vai instalar 30 postos de hidratação

No decreto o prefeito também estabelece que administradores de prédios e condomínios serão responsabilizados, caso sejam encontrados focos de dengue em suas áreas. A operação de guerra contra a dengue determina ainda que a Comlurb será acionada toda vez que donos de terrenos baldios forem omissos quanto a limpeza.

Em contrapartida ao apelo de trabalho conjunto feito à população, o prefeito anunciou que vai ampliar de 14 para 30 o número de postos de hidratação. Das 30 unidades criadas a serem distribuídas pela cidade, dez funcionarão 24h. Nesses postos de hidratação estarão cerca de quatro mil profissionais de saúde entre médicos, enfermeiros e técnicos.

O infectologista Edimilson Migowski, professor da UFRJ, elogiou as medidas adotadas pelo prefeito Eduardo Paes, principalmente a entrada nas casas fechadas ou abandonas. Para Migowski, a adoção de medidas antes do verão, aumentam as chances de minimizar os efeitos da epidemia.

- Além disso, estamos no período de aulas. Isso favorece a disseminação das medidas de prevenção à doença - disse Migowski.