Título: PIB põe em dúvida decisão do Banco Central
Autor: Ribeiro, Fabiana; Durão, Mariana
Fonte: O Globo, 03/09/2011, Economia, p. 31
Analistas lembram que consumo e serviços no país se mantêm aquecidos, o que alimenta alta de preços
Fabiana Ribeiro, Mariana Durão e Letícia Lins
RIO e RECIFE. O repentino corte da taxa de juros pelo Banco Central (BC) - em 0,5 ponto percentual, para 12% ao ano - não encontra respaldo no resultado do PIB do segundo trimestre, de acordo com analistas. O fraco crescimento da economia não consegue, segundo economistas, conter uma inflação que, em 12 meses, já está na casa dos 7%, acima, portanto, do teto da meta do governo. Além do consumo das famílias em alta, o mercado de trabalho esquenta ainda mais o debate dos juros ao abrir espaço a reajustes salariais acima da alta geral dos preços.
Os dados do PIB indicam que a economia brasileira cresce abaixo de seu potencial, explica Joaquim Eloi, diretor da Bahema. Mas o freio puxado, segundo ele, não conseguiu segurar a inflação, fortemente concentrada no setor de serviços.
- Combater inflação passa por desaquecer a economia. Porém, o mercado de trabalho está claramente aquecido, com baixas taxas de desemprego e com muitos reajustes acima da inflação. Com mais renda e trabalho, há mais consumo de produtos e serviços. O nível de atividade tem que cair para segurar a inflação - disse Eloi, para quem uma inflação de 6,0% não é "o fim do mundo" - O importante é olhar para a trajetória dessa inflação, se está subindo ou caindo.
Moradores de Recife, o casal Luiz Salvador Guedes Sobrinho e Miriam Souza da Silva é o retrato desse consumo pujante e do dinamismo do setor de serviços. O ex-pescador e a ex-doméstica atuam nas áreas de hidráulica e estética e tiveram a renda multiplicada. Com consciência de terem saído da baixa renda para a classe média, eles não escondem a satisfação de consumir: têm cinco telefones celulares, televisão LCD, máquina de lavar, computador, geladeira e acabam de renovar toda a mobília de seu apartamento. Sobrinho já tem planos para 2012: comprar uma casa com garagem para guardar o carro que pretende adquirir ainda no primeiro semestre.
Mas do desejo de consumo do casal, que mostra a demanda reprimida no país, Alexandre Maia, da GAP Asset Management, avalia que há forças contraditórias influenciando os preços. Ele cita uma queda prevista de preços administrados como o da tarifa de ônibus, em função das eleições municipais em 2012 (em anos eleitorais não há reajuste), e um cenário externo menos inflacionário. Reconhece, porém, que o corte realizado pelo BC torna a inflação de 2012 mais próxima de 6% que os 5,5% projetados até então pela GAP.
- Acreditamos que o BC derrubará a Selic a 10% até o início de 2012, o que se somará ao aumento do salário mínimo e a renda em alta - diz Maia.
Segundo Sergio Vale, da MB Associados, a desaceleração do PIB é saudável, mas não deve segurar os preços.
- Pelo contrário, com a decisão do Copom, a inflação deve ficar ainda maior ano que vem. Mudamos a projeção de 5,3% para 5,7% do IPCA em 2012 - comentou ele.
LCA: BC pode ter criado ambiente de incerteza
Para o economista da LCA, Bráulio Borges, a decisão do BC foi precipitada e influenciará negativamente as expectativas para a inflação, por ter criado um ambiente de incerteza:
- O BC pode até provar que está certo, mas deveria ter sinalizado ao mercado. O contexto político vai continuar gerando especulações sobre a ingerência do governo no comando da autoridade monetária.
Borges avalia que o corte não se baseou na expectativa para o PIB do segundo trimestre, que é passado, mas no cenário externo futuro. O economista acredita que a inflação está condicionada aos acontecimentos dos últimos trimestres do ano.
- A inflação desse ano está dada. Se o PIB desacelerar, podemos convergir para um IPCA inferior a 5% em 2012.