Título: Em alta consecutiva há mais de sete anos, consumo das famílias acelera
Autor: Ribeiro, Fabiana; Durão, Mariana
Fonte: O Globo, 03/09/2011, Economia, p. 30

Parte do crescimento é suprido por importações, que ganham espaço

Fabiana Ribeiro, Mariana Durão, Clarice Spitz e Danielle Nogueira

O consumo das famílias ganhou mais fôlego no primeiro trimestre. Após registrar alta de 0,7% no primeiro trimestre deste ano, o apetite para as compras voltou a acelerar, avançando 1% ante os três primeiros meses do ano. Em comparação ao mesmo trimestre de 2010, houve avanço de 5,5%, o que significa o 31º crescimento consecutivo. O ímpeto de consumo vem sendo suprido, em parte, pelas importações - que, por sua vez, contribuem para esfriar o desempenho da indústria.

- A elevação de 6,5% da massa salarial real e o crescimento nominal de 18,6% das operações de crédito para as pessoas físicas criam condições para essa expansão no consumo observada no segundo trimestre de 2011 - disse Rebeca Palis, do IBGE.

Segundo Carlos Thadeu Freitas, chefe do Departamento Econômico da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e ex-diretor do Banco Central (BC), o PIB aponta um ritmo menor da economia. Mas um freio que não foi forte o suficiente para esfriar o mercado interno.

- Com mais crédito e renda, o brasileiro segue gastando. E há uma nova classe média que foi incorporada à sociedade de consumo que passa a ter acesso a bens e serviços novos. É claro que a inflação tira um pouco essa capacidade de consumo, mas esse efeito, atenuado pelos reajustes salariais, acabam não sendo imediatos.

Serviços foi setor que mais cresceu na produção

Os dados do IBGE mostraram também a força do setor de serviços na economia brasileira. Ao puxar o crescimento de 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre, o segmento também avançou 0,8% na comparação com o primeiro trimestre - já a indústria subiu 0,2% e a agropecuária recuou 0,1%. Em relação ao mesmo período do ano passado, o setor de serviços também liderou com expansão de (3,4%), com destaques em serviços de informação (5,5%), comércio (4,9%) e intermediação financeira e seguros (4,5%).

Segundo Rebeca, o setor de serviços de informação, com destaque para telefonia móvel, foi o grande destaque entre as atividades econômicas no segundo trimestre do ano. Exceção em meio à desaceleração de todos os demais setores pesquisados pelo IBGE, o segmento cresceu 5,5% entre abril e junho, na comparação com o mesmo período do ano passado. Isso após uma expansão de 5,1% no primeiro trimestre, frente aos três primeiros meses de 2010. Frente ao início do ano, houve alta de 1,9%.

- Temos visto um crescimento muito grande nessa área, que não sofre muito com as turbulências - disse ela.

O designer Roberto Ferreira é um ávido consumidor de serviços de telefonia móvel. Dono de dois smartphones, um Android e um iPhone, ele tem mais de 150 aplicativos baixados, 60% jogos e metade pagos. Como empresário, ele também aposta no impulso do setor. Sua empresa, a RAFDesign, acaba de lançar o Baixa Lista, aplicativo de consulta de ofertas e comparação de preços regionais:

- Não é um setor imune à crise, mas o consumo de serviços mobile não vai parar de crescer nos próximos três anos.

Rebeca lembrou que o PIB também foi influenciado pelo setor externo, em consequência do câmbio.

- Parte da demanda interna e dos investimentos foi suprida pela importação. O setor externo continuou gerando uma contribuição negativa para o PIB - afirmou, acrescentando que a taxa de câmbio média ficou em R$1,60 no segundo trimestre e era de R$1,79, no mesmo período de 2010.

Nos cálculos de Felipe Wajskop, economista do ABC Brasil, o setor externo custou 0,6 do PIB - é o chamado vazamento externo. Se esse consumo tivesse sido abastecido pela produção interna, o país teria crescido 1,4% no segundo trimestre.

- Redução das exportações, aumento das importações por causa de câmbio e queda de preços no mercado internacional ajudam a explicar esse número.

O vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, avalia que, mantido o patamar de câmbio de até R$1,70, a balança comercial voltará a ficar no vermelho em 2012, algo que não acontece desde 2000.

- Não ficaria surpreso se fechássemos 2012 com déficit em nossa balança comercial.

A situação é considerada preocupante pelo primeiro vice-presidente da Abimaq, José Velloso. Ele alerta para o risco de desindustrialização e diz que a balança comercial do setor de máquinas e equipamentos este ano terá um déficit de US$21 bilhões.

Importação eleva arrecadação de impostos

Forte gerador de ICMS, o setor de telecomunicações foi um dos grandes responsáveis pelo aumento de 6% nos impostos registrados pelo PIB no trimestre encerrado em junho, em relação ao mesmo trimestre de 2010. As importações, que subiram 14,6% sobre 2010 e 6,1% ante ao primeiro trimestre, também pesaram nessa conta, já que trazem maior imposto de importação.

José Márcio Camargo, da Opus, lembra que o governo esta gastando mais. E quando se olha o Orçamento, é gasto corrente e não investimento:

- Eu preferia que o governo gastasse menos e cobrasse menos impostos para dar mais espaço para o setor privado crescer. O Brasil tem uma carga tributaria de 37% do PIB e mais 2,5% de déficit fiscal. É um dos maiores do mundo. O Estado é grande demais, mas isso é uma escolha da sociedade.