Título: A mentira está no ar
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Fonte: Correio Braziliense, 20/08/2009, Opinião, p. 28
Mais um triste e inócuo espetáculo protagonizado pelo Senado Federal. Essa é a avaliação mais sóbria a se fazer das cinco horas de depoimento da ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Casa. A inquirição em nada serviu para dirimir a dúvida sobre se mente ela, que diz ter sido chamada ao Palácio do Planalto pela ministra-chefe da Casa Civil e solicitada a ¿agilizar¿ uma investigação fiscal contra a família Sarney, ou se mente Dilma Rousseff, que nega o encontro. Apesar da gravidade do caso, os senadores o trataram como um jogo entre oposicionistas e governistas, ambos os lados cantando vitória.
A bem da verdade, se é para ver as coisas do ângulo de um reles placar, esse registra uma derrota da instituição, pela incapacidade de dar resposta satisfatória à sociedade. Lina Vieira se limitou a sustentar a versão dela, sem comprová-la ou apresentar novos indícios. No mais, descreveu o caminho que vai da garagem ao gabinete da ministra, o que não significa nada, e citou como testemunha o motorista que a teria levado à Presidência da República, no máximo capaz de confirmar o cumprimento de trajeto rotineiro. Nem sequer soube precisar o dia ou mês da suposta audiência. Foi o suficiente para a base aliada do presidente Lula dar como certo o encerramento do episódio, numa estranha e apressada disposição para pôr ponto final na história. Afinal, a conduta de Dilma, candidata em potencial à sucessão em 2010, e, por tabela, a do governo, permanecem sob questionamento.
Mas não será com os oposicionistas tachando os adversários de ¿Forças Armadas da Dilma¿ e sendo chamados pelos governistas de ¿trombadinhas do poder¿ que se chegará a bom termo. É preciso tratar a sério essa investigação, identificar a versão verdadeira e denunciar a mentirosa. Pouco importa se a própria Lina, de forma dúbia, tenta agora reduzir a importância da denúncia que fez, negando ter se sentido pressionada, admitindo que a Justiça já havia solicitado celeridade no processo sobre Fernando Sarney e esclarecendo não ter dado resposta à ministra nem ter sido cobrada depois por isso. Mais relevante do que saber se a suposta tentativa de interferência teve consequência ou não, é esclarecer se existiu.
A independência da Receita Federal e a impessoalidade no trato da coisa pública não podem ficar sob suspeita. A defesa desses princípios, não a da Dilma Rousseff, deveria ser a preocupação maior do presidente Lula. Daí lastimar-se também a conduta dele no episódio. Espera-se que cumpra papel de magistrado e não tape os olhos para mais um escândalo que abala o governo. Um bom começo para esclarecer os fatos seria ouvir o motorista citado como testemunha e verificar os registros de saída de veículos do Fisco rumo ao Palácio do Planalto tendo Lina Vieira a bordo. A partir da data ou datas levantadas, seria possível checar as gravações em vídeo do trânsito de pessoas na Casa Civil. Se comprovado o encontro, caberá à ministra a explicação final.