Título: No último dia, debates vão da língua portuguesa à traição
Autor: Miranda, André
Fonte: O Globo, 12/09/2011, Rio, p. 14
De Bechara discutindo gramática a Regina Navarro Lins questionando a fidelidade, feira se encerra com ecletismo
Da língua portuguesa à fidelidade conjugal, passando pela arte dos quadrinhos, a programação do último dia da 15ª Bienal do Livro do Rio confirmou o ecletismo que desde o início caracteriza o evento.
No Café Literário, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que entrou em vigor em 2009, foi o mote inicial da conversa entre o filólogo Evanildo Bechara e o jornalista e escritor Sérgio Rodrigues, mediada por André Valente.
Bechara afirmou que a unificação da língua será um passo decisivo para sua "maturidade política e cultural".
- O Brasil é considerado um país de grande futuro. Para isso se concretizar, a língua portuguesa precisa ser disseminada, o que só vai acontecer quando se apresentar ao mundo com uma única vestimenta - disse Bechara.
Crítica à polêmica sobre livro adotado pelo MEC
Os muitos usos do idioma entraram em pauta após uma pergunta da plateia sobre a polêmica em torno da obra "Por uma vida melhor", adotado pelo Programa Nacional do Livro Didático para a Educação de Jovens e Adultos do MEC. O livro foi criticado por incluir uma seção sobre variantes populares do idioma ("nós pega o peixe") e acusar de "preconceito linguístico" aqueles que não admitem tais usos, o que provocou reações entre os linguistas. Rodrigues classificou a polêmica como "uma conversa de surdos".
- Essa discussão botou em campos opostos os linguistas e imprensa, num enorme mal-entendido. Referir-se ao ensino da norma culta como "dominação de classe" ou "preconceito linguístico" é bobo e contraproducente no campo pedagógico. Mas também foi uma tremenda bobagem o escarcéu que se fez na mídia sobre isso. É preocupante ver uma imprensa que só compreende o aspecto normativo da língua - comentou o escritor, autor do blog Sobre Palavras, no site da revista "Veja".
No debate seguinte, mediado pelo jornalista e crítico de cinema Rodrigo Fonseca, de O GLOBO, o americano Scott Turow e o francês Marc Levy refletiram sobre a relação entre cinema e literatura.
- Não acho que o cinema influencie a minha forma de escrever - disse Levy, que veio à Bienal para o lançamento de "Tudo aquilo que nunca foi dito" (Suma de Letras).
Turow se disse resignado com as alterações de sua obra na adaptação para o cinema.
-- Na primeira vez que estive num set, o diretor me disse que se fossem levar o meu livro inteiro para o cinema, fariam um filme de 14 horas. Então não há jeito.
A relação entre palavra e imagem foi tema ainda de outra mesa no Café Literário. Sob mediação do editor e também autor Lobo Barba Negra, Lourenço Mutarelli, André Dahmer, Rafael Coutinho, Rafael Sica conversaram sobre HQs. Além das discussões sobre o processo criativo de cada um, a mesa tratou da natureza do trabalho artístico. Coutinho foi categórico em afirmar que "artista não é profissão, é um estado de espírito". Já Dahmer disse estar certo que "três quartos" do público que assistia ao papo era de artistas:
- Tem muito advogado que sofre porque sabe que é músico. Muito dentista que sofre porque sabe que é dançarino. E esses caras chegam em casa à noite e acabam usando drogas e álcool porque não conseguem se orientar no mundo.
Numa seara bem diferente, a jornalista Martha Mendonça e a sexóloga Regina Navarro Lins conversaram sobre sexo e traição numa mesa mediada pelo músico Leo Jaime. Regina disse que a fidelidade não deve ser levada tão a sério.
- Fidelidade é a nova virgindade na visão moral. (André Miranda, Guilherme Freitas, Luiz Felipe Reis e Michele Miranda)