Título: Pela via correta
Autor: Vidor, Geroge
Fonte: O Globo, 05/09/2011, Economia, p. 20

Juros excessivamente altos são uma anomalia, que só se justifica em situações extremas. Não é mais o caso brasileiro. A inflação nos últimos seis meses teve uma trajetória que se aproxima do centro da meta. Também é discutível a premissa que se repetirão as mesmas pressões que jogaram os índices de preços para cima no fim de 2010 e início de 2011.

As condições que possibilitavam a convivência com essa anomalia por tanto tempo no Brasil vêm desaparecendo, especialmente em relação à conjuntura da economia mundial. Os juros excessivamente altos não inibem apenas o consumo; inviabilizam investimentos capazes de tornar mais eficientes as cadeias produtivas brasileiras. Ou seja, desarrumam a produção. E, nesse sentido, além de outros efeitos colaterais negativos por demais conhecidos (transferência e concentração de renda, alimentação de movimentos financeiros especulativos etc.), funcionam como um sedativo narcotizante, impedindo que se anulem causas importantes da inflação.

Meses atrás formou-se um verdadeiro consenso em torno do qual as autoridades deveriam dirigir o fogo contra a inflação: redução do déficit do setor público, com ampliação do superávit primário federal (diferença entre receitas e despesas, exceto juros). Sem a muleta dos juros altos, o governo não terá agora alternativa e precisará atacar o problema pela via mais correta. E mais eficaz.

O primeiro navio petroleiro - encomenda de estreia - construído pelo Estaleiro Atlântico Sul, em Suape (Pernambuco), foi montado com 250 diferentes blocos de aço. O segundo, que já está com dois terços do casco montados no dique e terá o mesmo tamanho do primeiro, será composto de 130 diferentes blocos. O terceiro começou a ser montado também, com outra redução. No quarto, o número de megablocos se resumirá a 30, aproximando-se dos que são utilizados por renomados e ágeis estaleiros da Coreia do Sul e de Cingapura (que vão de um mínimo de 22 a um máximo de 28 megablocos na construção de um grande navio).

Na construção do primeiro navio, o próprio estaleiro estava inacabado, a mão de obra (em grande parte oriunda dos canaviais da Zona da Mata pernambucana) continuava em fases variadas de treinamento e nem todos os equipamentos haviam chegado, como os dois enormes guindastes pórticos, com altura de um edifício de 13 andares e capacidade de levantar pesos de 2.500 toneladas. Ambos foram inicialmente encomendados a um fabricante chinês, que faliu. O resultado é que o petroleiro não ficou pronto, nos padrões de qualidade exigidos em contrato pela Transpetro, no prazo previsto, e teve de sofrer vários reparos e ajustes. O navio, batizado com o nome de João Candido - líder da Revolta da Chibata, no início do século XX -, deverá ser entregue apenas no mês que vem. Mas o diretor superintendente do EAS, Agostinho Serafim Júnior, executivo licenciado da construtora Queiroz Galvão (grupo que se associou à Camargo Corrêa no estaleiro) promete entregar o segundo petroleiro em maio de 2012.

Trabalham hoje no EAS mais de sete mil pessoas, sendo 73% deles nordestinos. Os pernambucanos representam 58% do total da mão de obra. Ainda há um grupo de mais de 80 técnicos e engenheiros trabalhando no escritório do Rio, pois só agora a Universidade Federal de Pernambuco teve condições de criar o curso de engenharia naval. O EAS ofereceu estágio para todos os alunos desse curso, já a partir da primeira série (a turma inaugural ingressou na universidade com média de 7,98, o que indica que a engenharia naval atraiu a nata dos candidatos).

Quando atingir a plena capacidade, processando 100 mil toneladas de aço por ano, o EAS vai gerar 12 mil empregos diretos, em dois turnos. Para isso, está em expansão, com obras onde trabalham hoje mais de 400 pessoas.

Além dos navios petroleiros, o EAS está concluindo a base de uma plataforma submersível para a Petrobras e em breve receberá uma outra sob responsabilidade da Camargo Corrêa, que lá integrará os diferentes módulos que a compõem.

Agostinho está otimista com o desafio de construir sete navios-sonda especializados na perfuração de poços de petróleo, para o qual contará com a ajuda do sócio coreano, a Samsung, experiente no ramo. Para os navios convencionais, os futuros megablocos já embutirão um "acabamento avançado", o que na construção naval significa montar a embarcação embutindo previamente parcela considerável das instalações elétricas e hidráulicas. A chegada dos guindastes gigantes é que propiciará esse salto no processo.

O executivo se orgulha da alimentação oferecida pelo estaleiro aos operários. E, em especial o desjejum, composto de fruta, pão e queijo, café com leite, macaxeira (como é conhecido no Nordeste a mandioca ou o aipim) ou inhame cozidos, e mais um tipo de carne. Quando assumiu a direção do estaleiro em maio, ao ver essa refeição reforçada, achou que o pessoal não teria disposição depois para o trabalho. Mas é hábito na região: se o café da manhã for um quase almoço, a turma traça e segue adiante...