Título: Israel tenta virar o jogo na ONU
Autor: Godoy, Fernanda
Fonte: O Globo, 19/09/2011, O Mundo, p. 25

País busca, com encontros bilaterais e retórica, alternativas para frear votação de Estado palestino

O ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, se encontrou ontem como o primeiro-ministro palestino, Salam Fayyad, em Nova York, num último esforço de tentar convencer a Autoridade Nacional Palestina (ANP) de desistir de buscar o reconhecimento de seu Estado na 66ª Assembleia Geral da ONU, que começa na quarta-feira e transformou a cidade na capital diplomática do mundo. Nestes dias que antecedem o início da assembleia, a sede da ONU e diversos salões de reuniões por toda Nova York se converteram em palcos de negociações simultâneas para tentar um acordo que reabra em termos concretos as negociações entre palestinos e israelenses, evitando um confronto na votação de sexta-feira, dia 23.

A data foi escolhida pelo presidente da ANP, Mahmoud Abbas, que embarcou ontem rumo aos EUA, para apresentar o pedido de reconhecimento do Estado Palestino como o 194º membro da ONU. Apesar da firme posição em relação à votação, os palestinos sinalizaram ontem com uma possível mudança de posição. O representante da ANP nos EUA, Maen Rashid Areikat, afirmou que uma alternativa viável (à votação) significaria "termos de referência claros para retornar às negociações (de paz) com prazo para terminar e objetivo final".

- Para os palestinos o objetivo final é a liberdade, a capacidade de viver livremente, com o fim da ocupação militar de Israel - disse à CNN.

Os israelenses, por sua vez, condicionam qualquer negociação de paz à desistência do pleito na Assembleia Geral. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netahyahu, que discursará na quinta-feira para explicar a posição de Israel, tentou minimizar ontem a situação, usando a retórica como instrumento de pressão: afirmou que o pleito palestino está fadado ao fracasso mesmo que vença a votação de sexta-feira.

Segundo ele, a assembleia é "como um Parlamento", onde se pode aprovar qualquer coisa, "até que o Sol possa nascer no Oeste", numa tentativa de reduzir a importância da votação na ONU, onde o apoio à criação da Palestina é esmagador, e enfatizar a maior força executiva do Conselho de Segurança, onde os EUA exercerão seu poder de veto, tornando qualquer outra votação inócua.

EUA pressionam para não vetarem

Os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança - EUA, Rússia, China, Reino Unido e França - estão divididos. Rússia e China apoiam a intenção palestina, enquanto França e Reino Unido devem se abster. Os EUA são contra o reconhecimento unilateral do Estado palestino, e basta um veto de um membro permanente para derrubar pleito.

Os votos dos membros rotativos Líbano, Brasil, Índia e África do Sul serão pró-Palestina. Para diminuir seu isolamento, os EUA pressionam os outros aliados europeus (Alemanha e Portugal) e a Colômbia, outro país próximo de Washington. As chances de conseguir os votos da Bósnia-Herzegovina, do Gabão e da Nigéria são pequenas, para os americanos.

O Brasil já reconheceu o Estado da Palestina, em dezembro passado, e a presidente Dilma tratará desse tema nas reuniões bilaterais que terá com os presidentes Barack Obama, hoje, e Nicolas Sarkozy, amanhã, e também com o primeiro-ministro britânico, David Cameron.

Mesmo diante de algumas preocupações sobre o tema, inclusive dos EUA, a presidente vai falar sobre a questão da criação do Estado palestino em seu discurso na próxima quarta-feira, na abertura da assembleia. Dilma fará um discurso mostrando a força do Brasil, inclusive em termos econômicos, e fará cobranças sobre a necessidade de mudanças no plano internacional.

- A presidente vai defender a posição de dezembro - afirmou o assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia.

As negociações foram intensas ontem, ao longo de todo o dia, na tentativa de achar uma saída para o impasse e evitar que o pleito palestino chegue à votação. Os representantes do Quarteto - EUA, União Europeia, ONU e Rússia - conversaram com os dois lados em busca de avanços antes do prazo final.

Enviado especial do Quarteto, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair disse que ainda há tempo para evitar um confronto.

- O que buscamos é uma maneira de fazer com que, ao mesmo tempo, as legítimas aspirações dos palestinos ao reconhecimento de seu Estado e as negociações diretas entre as duas partes sejam mantidas - disse Blair, em entrevista à rede de TV ABC.

Ontem, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, se reuniu com a chefe da diplomacia da União Europeia, Catherine Ashton, para "discutir o caminho adiante, os próximos passos". O embaixador de Israel em Washington, Michael Oren, afirmou que os EUA estão "trabalhando incansavelmente com os outros membros do Quarteto" para encontrar uma solução que evite a necessidade do veto no Conselho de Segurança.

- Eles estão trabalhando por uma solução aceitável para nós e para convencer os palestinos a desistir de recorrer à ONU e a voltar para a mesa de negociações - afirmou Oren.

COLABOROU: Cristiane Jungblut, enviada especial a NY