Título: Uma candidata vitoriosa articulada pelo filho
Autor: Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 22/09/2011, O País, p. 12

Filha de Miguel Arraes e mãe do governador de Pernambuco, ela tinha atuação discreta na vida política até eleição de 2006

BRASÍLIA. A nova ministra do Tribunal de Contas da União (TCU), Ana Arraes, entrou na vida pública por acaso. Em 2006, diante da difícil disputa eleitoral para o governo de Pernambuco, o então deputado federal Eduardo Campos (PSB) e candidato ao governo estadual na ocasião precisava de um plano reserva para compensar uma eventual derrota sua. Com um número reduzido de aliados, decidiu lançar a mãe como candidata a deputada federal com dois objetivos: atrair votos para a eleição proporcional (de deputados) e garantir uma estrutura política em Brasília, caso não fosse eleito.

Desempenho discreto na Câmara dos Deputados

Foi com o objetivo de ajudar o filho que Ana Arraes, que até então tinha tido uma atuação discreta na política, decidiu disputar pela primeira vez uma eleição. Com desempenho igualmente discreto no Congresso, foi reeleita em 2010 e agora ganhou o cargo no Tribunal de Contas da União.

Quando o pai, o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, foi para o exílio na Argélia, nos anos 1960, Ana Arraes ficou em Recife, mas não era alheia à política, dizem os amigos.

- Antes de disputar qualquer eleição, ela sempre foi política. Ficou no Brasil quando o governador Miguel Arraes foi para o exílio. Ela fez parte de movimentos de resistência democrática. Fazia reuniões políticas e estava no centro das conversas pela redemocratização. Ela se posicionava e sempre era ouvida - conta o amigo e presidente do Tribunal de Contas de Pernambuco, Marcos Loreto.

Formada em Direito, com 64 anos de idade - teve o filho Eduardo Campos com 18 anos -, Ana Arraes é casada com o escritor Maximiliano Campos, que integrou com Ariano Suassuna o Movimento Armorial. Teve uma atuação quase apagada na vida pública, inclusive depois da anistia, quando o pai retornou do exílio.

Filiou-se ao Partido Socialista Brasileiro (PSB) em 1991, seu único partido nestes 20 anos. Mas nunca demonstrou pretensões políticas. Na família Arraes, só o filho Eduardo Campos tinha demonstrado interesse na vida pública - disputou a primeira eleição de deputado estadual em 1990.

Em 2010, Ana se reelegeu com 387 mil votos

Antes de ser eleita para o primeiro mandato, Ana Arraes trabalhou na Fundação Joaquim Nabuco, no Tribunal de Contas de Pernambuco e foi técnica judiciária do Tribunal Regional do Trabalho.

Na Câmara dos Deputados, ganhou um pouco mais de visibilidade no segundo mandato, iniciado no início deste ano, depois de ter sido a mais votada do estado, eleita com 387 mil votos. O passado do pai e o presente atuante do filho ajudaram não apenas na votação expressiva como também na decisão da bancada do PSB de a escolher como líder na Câmara.

Sua candidatura ao Tribunal de Contas da União surgiu da articulação de um grupo de deputados do PSB, do governador Eduardo Campos e do ministro do TCU José Múcio, também pernambucano. A primeira opção do grupo foi o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Mas com a indefinição de Aldo - que demorou a se decidir -, Eduardo Campos acabou liderando a campanha a favor da mãe e se empenhou pessoalmente para retirar outras candidaturas e, com isso, fortalecer a posição dela na disputa.