Título: Sem negociação à vista
Autor:
Fonte: O Globo, 21/09/2011, O Mundo, p. 28
Palestinos rejeitam diálogo sem garantias com Israel, e especula-se que voto na ONU seja adiado
NOVA YORK
Sob intensa pressão para desistir de apresentar a proposta da criação de um Estado próprio à ONU na sexta-feira, a Autoridade Nacional Palestina (ANP) descartou ontem uma reunião com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, se Israel não detiver os assentamentos e aceitar um cronograma de negociação. Mas nos bastidores que antecedem a reunião, circulam rumores de que a votação pode ser adiada por semanas, para dar tempo de diplomatas buscarem uma saída que leve os dois povos de volta à mesa de negociação.
- Netanyahu deve aceitar os termos e deter os assentamentos para iniciar as negociações com garantias internacionais para torná-las sérias - disse o chanceler palestino, Riyad al-Maliki, ressaltando não ter recebido uma proposta formal de encontro.
Com o conflito deslocado do Oriente Médio para Nova York, os dois lados buscam votos contra e a favor à criação de um Estado palestino em Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental. Mais cedo, o embaixador israelense na ONU, Ron Prosor, pedira a retomada das negociações sem pré-condições. Antes de partir para os EUA, Netanyahu informou que dirá na ONU ser prematuro estabelecer um Estado quando há questões pendentes. Já seu ministro das Finanças, Yuval Steinitz, advertiu que a medida pode levar à suspensão da transferência de US$100 milhões ao mês para a ANP em impostos.
O presidente da ANP, Mahmoud Abbas, passou o dia em reuniões, encontrando-se com o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e com Michel Suleiman, presidente do Líbano, membro rotativo do Conselho de Segurança. Segundo fontes, Sarkozy tentou convencer Abbas a não apresentar a medida, propondo em vez disso buscar na Assembleia Geral - onde nenhum país tem direito a veto - o status de Estado observador.
Maliki acredita que sua delegação conseguirá que os nove votos necessários do Conselho, e espera que os EUA - um dos cinco membros com direito a veto - revejam a posição contrária à proposta. Israel conseguiu reverter ao menos um apoio: a Nigéria, antes favorável aos palestinos, decidiu se abster, segundo o "Yediot Ahronot".
Sob pressão doméstica, Obama tenta hoje acordo
Observadores consideram que um veto dos EUA diante de uma votação majoritária a um Estado palestino traria riscos diplomáticos num momento de revolta política no Oriente Médio.
- Eu esperaria grandes manifestações nas capitais árabes - disse Marwan Muasher, vice-presidente de estudos no Carnegie Endowment.
A questão entre israelenses e palestinos foi um ponto de divergência no encontro entre o presidente dos EUA, Barack Obama, e o premier turco, Recep Tayyip Erdogan, que apoia a proposta de Abbas. E esteve presente na maratona de encontros de Obama, que recebeu, entre outros líderes, o presidente afegão, Hamid Karzai. Hoje, Obama se reúne, separadamente, com Netanyahu e Abbas. Para o governo americano, ainda há tempo de evitar um confronto na ONU.
Além da pressão externa, Obama enfrenta a interna. A questão virou munição para os pré-candidatos republicanos à Presidência em 2012: reunido com líderes judaicos, Rick Perry acusou o presidente de não apoiar Israel; já Mitt Romney disse que Obama "minou a capacidade negociadora" do aliado.
Mas dificilmente a proposta seria votada na sexta-feira, segundo fontes diplomáticas. O jornal israelense "Haaretz" chegou a falar num "acordo silencioso" entre potências ocidentais para atrasar a votação em semanas ou mesmo meses. A informação foi reforçada por uma declaração do chanceler francês, Alain Juppé, dizendo não acreditar numa votação depois de amanhã:
- Há um procedimento para esses pedidos e isso pode levar alguns dias ou semanas, o que significa que há espaço para outras iniciativas.
Representantes de outros países também passaram o dia em reuniões. Entretanto, o chanceler britânico, William Hague, disse que o Quarteto - formado por EUA, Rússia, ONU e União Europeia - não obteve progressos.