Título: FMI reduz previsão de crescimento mundial
Autor: Eichenberg, Fernando
Fonte: O Globo, 21/09/2011, Economia, p. 23

TURBULÊNCIA GLOBAL: Estados Unidos e União Europeia podem voltar à recessão em 2012, aponta instituição

Relatório projeta que Brasil terá a 2ª menor expansão na América do Sul, de 3,8% este ano, só superando a Venezuela

WASHINGTON. A economia mundial entrou em "uma nova e perigosa fase", de acordo com o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Ao divulgar ontem seu Relatório Anual de Perspectiva Econômica Global, o Fundo reviu para baixo as projeções de crescimento de todos os países, inclusive Brasil, e alertou que os EUA e as nações da zona do euro poderão entrar em recessão em 2012.

No caso do Brasil, o FMI prevê agora que o país registrará este ano um crescimento de 3,8%, o segundo menor na América do Sul, atrás apenas da Venezuela (2,8%), e inferior à média da região (4,9%). A previsão do FMI coloca o Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) brasileiro abaixo da média de crescimento esperado para os mercados emergentes, calculada em 6,4%, do mundo, de 4%, e acima da fraca expansão estimada para os países ricos, de apenas 1,6%. Em relação às previsões de junho deste ano, o Fundo reduziu as expectativas do crescimento brasileiro em 0,3 ponto percentual - a estimativa anterior era de 4,1% -, e aponta um índice de 3,6% para 2012.

O FMI calcula que os EUA crescerão apenas 1,5% este ano e 1,8%, em 2012. Mas, mesmo para alcançar esse patamar de crescimento, o país terá que crescer a um ritmo anual de 0,7% no primeiro semestre. Na avaliação anterior, feita em junho, esses números apontavam uma expansão de 2,5% e 2,7%, respectivamente. A maioria dos economistas calculam um crescimento para os EUA entre 1,5% e 2% nos dois últimos trimestres deste ano. Esse patamar não seria suficiente para reduzir a taxa de desemprego do país.

- A economia global entrou em uma nova fase perigosa - disse Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI. - A recuperação perdeu força consideravelmente. Políticas mais duras são necessárias para melhorar o panorama e reduzir os riscos.

O Fundo também reduziu sua previsão para os 17 países da zona do euro. Ele prevê 1,6% de expansão este ano e 1,1%, em 2012. Em junho esses números eram, respectivamente, 2% e 1,7%.

- Os mercados se tornaram claramente céticos quanto à capacidade de muitos países conseguir estabilizar seu endividamento público - disse Blanchard. - O medo do desconhecido é alto.

No geral, o FMI prevê um crescimento global de 4% neste ano e no próximo. Apesar do encolhimento de emergentes, a expansão desses países será superior a de EUA e Europa. No caso da China, a previsão para este ano caiu de 9,6%, em junho, para 9,5%. Em 2012, a expansão recua de 9,5% para 9%.

Fundo aprova corte de juros feito por BC brasileiro

No caso brasileiro, o FMI não considera alarmante a previsão de uma expansão menor, mas sim as ameaças de um superaquecimento, dos efeitos da turbulência do cenário internacional, e o risco decorrente da volatilidade do fluxo de capitais. Para os economistas do Fundo, os recentes ajustes fiscais promovidos pelo Banco Central (BC) - inclusive o inesperado corte de 0,5 ponto percentual da Taxa Selic no fim de agosto - foram "apropriados".

- No caso do Brasil, está muito claro que o BC colocou ênfase nos riscos de queda do crescimento que estão emergindo no ambiente externo. Temos de esperar para ver qual será o impacto na demanda doméstica e nas pressões inflacionárias, mas temos certas garantias pelo fato de que a política fiscal foi ao mesmo tempo apertada, o que deve ajudar a aliviar algumas dessas pressões - avaliou Petya Koeva Brooks, chefe do Departamento de Estudos Econômicos Globais do FMI.

O economista do FMI Philip Gerson ressaltou que o Brasil enfrenta desafios fiscais de longo prazo, como a "rigidez orçamentária" ou a "estrutura tributária", mas definiu como acertado o "equilíbrio" das políticas monetária e fiscal adotado.