Título: Recessão no Brasil é cenário pouco provável
Autor: Nogueira, Danielle
Fonte: O Globo, 24/09/2011, Economia, p. 32
Para economistas, globalização tornou país mais vulnerável, mas setor de serviços amenizará efeitos da turbulência
O Brasil está mais vulnerável à volatilidade da economia internacional que, no período anterior à década de 80, mas um cenário de recessão não é o mais provável para a economia brasileira para os próximos meses, na avaliação de economistas que participaram ontem de seminário do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), na Fundação Getúlio Vargas, no Rio. Embora o setor industrial seja fortemente afetado pela crise global, o setor de serviços ajudará o país a amenizar os efeitos da turbulência, que deverá se manifestar por aqui como uma forte desaceleração.
- O Brasil era muito menos sensível às oscilações da economia (mundial), era mais isolado do resto do mundo. Talvez o custo da globalização, da integração, seja esse (de estar mais vulnerável a turbulências internacionais) - disse Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central e presidente do Codace.
Desde 1980, recessões no país são mais longas
Estudo apresentado ontem no evento pelo economista Regis Bonelli mostra que o Brasil passou por apenas duas recessões entre 1947 e 1980, com duração de dois e três trimestres. Entre 1980 e 2011, foram oito ciclos recessivos e muito mais longos, com duração média de 15,8 meses, ou seja, superior a cinco trimestres. O último foi no fim de 2008, após a queda do banco de investimentos americano Lehman Brothers e, ao contrário da maioria das recessões pós-80, durou apenas dois trimestres.
- Acreditamos que teremos uma forte desaceleração agora, não recessão - disse Bonelli.
Para Pastore, o retorno a um ciclo recessivo mais curto no país, em 2008/2009, tem relação com o avanço do peso do setor de serviços na economia, além da melhor execução da política econômica, em comparação com os grandes desequilíbrios macroeconômicos dos anos 80.
- Houve um avanço do setor de serviços. O Brasil é uma economia fechada com relação ao comércio exterior, mas a indústria é aberta. Os choques (internacionais) se transmitem para a economia brasileira pelo setor de bens comercializáveis, que é a indústria - diz ele, ressaltando que essa característica do setor industrial explica em parte o descolamento entre o seu desempenho e o de serviços nos últimos anos.
Mônica de Bolle, da consultoria Galanto, chamou a atenção para a diferença de padrão dos ciclos recessivos entre Brasil e EUA. Segundo ela, entre 1947 e 1979, os EUA tiveram sete recessões de cinco trimestres em média, ou seja, mais longas que as brasileiras no período. Entre 1980 e os anos 2000, foram três recessões curtas.
- Os padrões se invertem. Na última recessão pudemos constatar isso de novo. Aqui foram dois trimestres (2008/2009); nos EUA, ela foi bem maior (começou em dezembro de 2007 e acabou em junho de 2009) - afirmou.