Título: Câmbio louco: governo em compasso de espera
Autor: Bôas, Bruno Villas
Fonte: O Globo, 25/09/2011, Economia, p. 41
Equipe econômica fará reunião de emergência e indica que usará "armas de sempre"
BRASÍLIA. Tudo em compasso de espera: negócios parados, porque empresários não sabem que taxa de câmbio usar. Na outra ponta, o governo à espera do fim dessas oscilações diárias do dólar para tomar medidas, caso julgue necessário. Esse cenário de incertezas será tema de reunião entre o ministro da Fazenda, Guido Mantega - que antecipou a volta de Washington de terça-feira para hoje, devido ao recrudescimento da crise -, e a presidente Dilma Rousseff, que falou sobre as turbulências diversas vezes, durante sua viagem a Nova York.
A equipe econômica já avisou que poderá usar "as armas de sempre" para lidar com alta do câmbio durante a crise internacional. No cardápio estão desde o uso das bilionárias reservas internacionais para garantir a liquidez do mercado até a suspensão da medida recente que instituiu a cobrança de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) no mercado de derivativos. Por enquanto, no entanto, a decisão é agir com cautela diante do cenário ainda nebuloso até que se esclareça a nova tendência do câmbio.
Técnicos do governo lembram que o país dispõe de cerca de US$350 bilhões em reservas, que podem ser usadas na eventualidade de um ataque especulativo. Além disso, as taxas de juros, hoje de 12% ao ano, podem ser usadas para atrair ou afastar capitais do país.
- A verdade é que não houve qualquer mudança estrutural na economia brasileira que justifique o repique. Assim como vai, volta - afirmou o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini.
Em Brasília, os técnicos continuam à espera de uma situação mais clara do que acontece.
- A Fazenda acompanha de perto a crise e está pronta para tomar medidas, caso aconteça o pior - disse uma fonte da área econômica.
No Banco Central (BC), a ideia é prover liquidez quando necessário. A autarquia está de olho no mercado futuro, de onde vem o motivo das oscilações dos últimos dias.
IOF tem mais influência no dólar do que a crise, diz especialista
Para um dos maiores especialistas em câmbio do país, Sidnei Nehme, da corretora NGO, não é a crise que mexe com o dólar, mas o IOF para derivativos criado em julho que deixou o mercado travado, sem liquidez e sensível. Isto porque as apostas tinham sido feitas na queda do dólar e na alta da Selic (taxa básica de juros), o que não aconteceu.
Nehme vê que o problema agora é o pânico causado, nas pessoas físicas e nas empresas, pela repercussão que a alta da moeda americana teve e isso pode, sim, mudar projeções. Entretanto, ele acredita que o BC continuará a agir até fornecer toda a liquidez necessária para os fundos compensarem as medidas adotadas pelo governo e "zerar suas posições", no jargão do mercado.
- A razão da alta do dólar não está na Europa, está aqui. E depois de passado tudo isso, o dólar deve voltar para a casa de R$1,70 e não haverá mais espaço para especulação.
Enquanto isso, a falta de clareza nas previsões prejudica muito os exportadores. Por mais que venham torcendo ostensivamente pela alta do dólar para garantir a competitividade da produção brasileira, os empresários admitem que oscilações bruscas como as da semana passada não favorecem os negócios.
- Vejo com satisfação a alta taxa de câmbio, mas com preocupação a oscilação. Causa grande insegurança e incerteza. Se vender hoje, vai utilizar que taxa de câmbio? Ninguém vai considerar taxa de câmbio hoje de R$1,90 - disse o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, para quem a alta do dólar não se trata de uma tendência consistente, mas de uma movimentação que se deve à crise e à especulação.
Segundo ele, é preciso identificar uma tendência porque, quando a alta é muito forte, os exportadores são obrigados a negociar preços com os importadores.