Título: Lagarde: emergentes não fazem o suficiente
Autor: Eichenberg, Fernando
Fonte: O Globo, 23/09/2011, Economia, p. 30
Para diretora-gerente do FMI, demanda precisa ser estimulada. Ela e Zoellick dizem que mundo está em "zona perigosa"
CHRISTINE LAGARDE: "Economia global está enfrentando uma crise de confiança piorada por indecisão estratégica"
WASHINGTON e ATENAS. A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, criticou ontem os países emergentes por não focarem no estímulo da demanda doméstica para manter o crescimento econômico e amortecer os choques provocados pela piora do cenário mundial. No mesmo espírito de vigilância, no encontro anual do Fundo com o Banco Mundial, o presidente desta instituição, Robert Zoellick, revelou desconfiança em relação à atual capacidade de recuperação da economia mundial, a qual também colocou em "zona perigosa". Já os Brics - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul - frustraram as expectativas e não chegaram a um consenso sobre a adoção de medidas concretas de ajuda à crise europeia.
- Eles não estão fazendo o suficiente para incentivar seus mercados domésticos numa perspectiva de reequilíbrio, como tem sido recomendado há muito tempo pelo Fundo - disse Lagarde, acrescentando que os emergentes não se movem rápido o suficiente para balancear demanda pública e privada.
Lagarde avaliou a recuperação econômica pós-crise financeira internacional de 2008 como mais lenta e fraca que o esperado e voltou a alertar para a "zona perigosa" em que se encontra a economia mundial. Para a diretora-gerente, hoje há menos munição e margem de manobra que em 2008 para enfrentar a crise:
- A economia global está enfrentando uma crise de confiança piorada por indecisão estratégica e disfunção política. Há um caminho para a recuperação. Ele é mais estreito do que há três anos, quando fomos atingidos pela crise financeira, mas há um caminho.
Essa via, segundo Lagarde, passa por uma rápida, forte e coordenada ação coletiva, política e econômica dos principais países envolvidos.
Zoellick concorda que o munda está em "zona perigosa", mas acha improvável um segundo mergulho recessivo das maiores economias do mundo. Reconheceu, porém, que sua confiança nisso "está sendo erodida diariamente pelas notícias econômicas". Ele enfatizou o papel a ser desempenhando pelos países ricos para impedir o contágio da crise para os mercados em desenvolvimento.
- Uma crise feita no mundo desenvolvido poderia se tornar uma crise para os países emergentes. Europa, Japão e EUA têm de agir para enfrentar seus grandes problemas econômicos antes que eles se tornem problemas maiores para o resto do mundo - afirmou Zoellick, que pediu aos emergentes que promovam políticas de crescimento de longo prazo e evitem a adoção de práticas protecionistas. - Não façam coisas estúpidas. Não permitam que os países naveguem para o protecionismo.
Já Mohamed El-Erian, diretor-executivo da Pimco, recomendou cautela ao Brasil em suas expectativas econômicas:
- Até que os EUA deem uma solução para os seus problemas, os mercados emergentes agiriam melhor se forem cautelosos e não tão ambiciosos.
Mantega critica adoção de medidas protecionistas
Também reunidos ontem na capital americana, os ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais dos Brics se limitaram a manifestar sua disposição em auxiliar os europeus a encontrarem uma solução para a crise do euro.
"Os Brics estão abertos a considerar, se necessário, prover apoio por meio do FMI ou de outras instituições financeiras internacionais, para enfrentar os atuais desafios da estabilidade financeira mundial, dependendo das circunstâncias individuais dos países", diz nota do grupo.
Duas opções foram discutidas, sem que houvesse acordo para uma ação dos Brics: a compra de títulos do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira e o aumento da contribuição ao FMI.
Já o ministro da Fazenda, Guido Mantega, alertou para o perigo de que a demora na resolução da crise na Europa atinja o Brasil e outros emergentes, principalmente os de economia mais frágil. Ele exigiu rapidez, ousadia e cooperação dos países europeus e recomendou um fortalecimento do G-20 e do papel do FMI para evitar o pior no enfrentamento da crise.
- O comércio mundial poderá ser afetado. A queda dos preços das commodities pode enfraquecer o crescimento de nossos países, e corre-se o risco de se ter uma nova crise.
Os Brics decidiram ontem intensificar a "atividade comercial e financeira" no âmbito do grupo, para estabelecer uma "solidariedade" e se fortalecer para um agravamento da crise.
- Devemos aumentar também a interação entre os Brics. Somos os países de maior crescimento, com posições fiscais melhores - justificou Mantega.
Ele criticou a tentação de adoção de medidas protecionistas para "proteger os mercados que funcionam". E negou essa prática em relação ao recente aumento no IPI para carros importados ou fabricados no Brasil sem 65% de conteúdo nacional.
- Isso não é uma medida protecionista, mas que estimula investimentos locais em tecnologia, que estão abertos a todos os países, a todas as empresas. Não há restrições para que as empresas façam isso no Brasil.
Na Grécia, uma greve de 24 horas dos transportes públicos, que contou ainda com a participação dos taxistas, bloqueou o Centro de Atenas. A paralisação coincidiu com uma greve dos controladores de tráfego aéreo, causando atrasos e cancelamentos em mais de cem voos. Os protestos começaram na madrugada na Praça Sintagma, com o objetivo de mostrar o descontentamento da população com as medidas de austeridade, como redução de salários e aposentadorias. Os principais sindicatos convocaram greve geral para 5 e 19 de outubro.