Título: DNA da dengue 1 revela nova ameaça
Autor: Grandelle, Renato
Fonte: O Globo, 04/10/2011, Ciência, p. 30

Descoberta de linhagens mostra que há risco de vírus mais agressivo

Dado como adormecido anos atrás, após a epidemia de 1986, o vírus tipo 1 continua a preocupar - e a produzir novas linhagens, de potencial mais agressivo. Esta é a conclusão de um novo estudo, realizado pela pesquisadora Flávia Barreto, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). Foi este o sorotipo responsável por mais de 1 milhão de casos notificados no Rio em 2010, além de outros 159 mil de janeiro a setembro deste ano.

Desde 2009, duas novas linhagens do tipo 1, distintas daquela identificada nos anos 80, entraram no país: uma de origem latino-americana e outra asiática - continente de origem dos variantes mais graves.

Flávia comparou o genoma dos vírus presentes em amostras da epidemia de 1986 e de casos mais recentes.

- A imunidade do indivíduo infectado pela dengue é ligada ao sorotipo - ressalta. - Uma vez contaminado por um dos quatro sorotipos, o indivíduo fica imune a ele para a vida toda, independentemente de sua linhagem.

A chegada de variantes, porém, aumenta o número potencial de vítimas. Se o tipo 1 do vírus não adormeceu após 1986, quem nasceu desde então não desenvolveu qualquer resposta a ele. Está, portanto, sujeito a ser contaminado por esse sorotipo.

O Laboratório de Flavivírus, responsável pela pesquisa, já fez trabalho semelhante com o vírus da dengue tipos 2 (responsável pela epidemia de 2008) e 3 (que produziu o surto de 2002). Os resultados foram depositados em bancos de dados internacionais, o que contribui para que estudiosos do mundo inteiro conheçam os tipos genéticos e, assim, possam agrupá-los com outros, eventualmente descobertos depois.

Enquanto cada epidemia do tipo 1 veio de uma linhagem diferente, a mesma diversidade não foi observada em outros genotipos.

- Concluímos que o vírus do tipo 2 da epidemia de 2008 e que ainda circula no Brasil é o mesmo presente no Sudeste Asiático e nas Américas nos últimos 20 anos - explica a pesquisadora.

Nos últimos meses, a grande preocupação tornou-se a dengue tipo 4, cujo registro foi feito apenas este ano em vários estados, inclusive o Rio.

Segundo Flávia, este novo tipo pode causar tantos casos assintomáticos - ou seja, quando o indivíduo infectado não apresenta sintomas - quanto ocorrências fatais. Como o Aedes aegypti, mosquito vetor da doença, é encontrado em todo o país, o risco de uma nova epidemia pode ser considerável.

- Historicamente, a introdução de um novo sorotipo em uma população suscetível tende a causar um grande número de casos, mas isso é imprevisível - pondera Flávia.