Título: Grécia prevê mais recessão e derruba mercados
Autor:
Fonte: O Globo, 04/10/2011, Economia, p. 23
Bolsa de SP recua 2,93%, e NY cai 2,36%. Atenas projeta queda de 5,5% do PIB este ano e de 2,5% em 2012
ATENAS, BRUXELAS, NOVA YORK e RIO. A situação da Grécia voltou a preocupar os mercados ontem, depois de o país ter admitido, no fim de semana, que não conseguirá cumprir as metas acertadas com Fundo Monetário Internacional (FMI) e União Europeia (UE). Isso aumentou os temores de um calote. E ontem o governo informou que espera que a economia continue a encolher no ano que vem, devido ao cenário externo de crise.
Atenas estima retração de 5,5% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) este ano - maior que a projetada pela UE em junho, de 3,8% - e queda de 2,5% em 2012. Seria o quarto ano de recessão, já que o PIB caiu em 2009 e 2010. Os gastos dos consumidores devem cair 3,8% este ano, e o desemprego, passar de 15,2% para 16,4%.
"O ambiente econômico externo para 2012 está se desenhando menos favorável que o esperado. As incertezas continuam grandes. Para as economias mais desenvolvidas, as perspectivas de crescimento estão menos otimistas que há seis meses", afirmou o governo grego.
Com relação ao déficit orçamentário, as projeções para 2012 são de 8,5% do PIB, ou 18,69 bilhões, contra uma meta de 7,8%, ou 17,1 bilhões.
Analista espera "calote desordenado" na Grécia
O Ibovespa, índice de referência da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), recuou 2,93%, aos 50.791 pontos, a segunda pior pontuação do ano - abaixo apenas de 8 de agosto, o primeiro pregão após o rebaixamento da nota de crédito dos Estados Unidos pela agência de classificação de risco Standard & Poor"s.
- O mercado está olhando para a Grécia, e o que acontecer lá pode ser um divisor de águas - afirmou o gestor de renda variável da Máxima Asset Management, Felipe Casotti.
Em Wall Street, o Dow Jones, principal índice da Bolsa de Nova York, recuou 2,36%. Pesaram as ações de bancos, com quedas acima de 7% - o Bank of America caiu 9,64% -, enquanto a American Airlines despencou 33% devido a rumores de concordata. O S&P 500 fechou em baixa de 2,85%, e o Nasdaq, de 3,29%.
- Veremos um calote desordenado na Grécia, e pode haver outra crise bancária na Europa, porque as instituições financeiras estão descapitalizadas e abarrotadas de (títulos de) dívida - disse à agência de notícias Reuters Jack de Gan, diretor de Investimentos da Harbor Advisory.
Uma pesquisa do site CNNMoney com 22 economistas apontou elevada possibilidade de um calote da Grécia.
Na Europa, Londres recuou 1,03%, Paris perdeu 1,85% e Frankfurt teve queda de 2,28%. O mercado asiático não foi diferente: Tóquio caiu 1,78% e Cingapura, 2%. Já Hong Kong recuou 4,38%. Na China e Coreia do Sul, foi feriado.
Dilma alerta UE: ajustes só aprofundam estagnação
Em sua visita à Bélgica, a presidente Dilma Rousseff ofereceu uma receita caseira anticrise à UE: adotar medidas que evitem a recessão. Segundo Dilma, ajustes em demasia, como os que vêm sendo impostos à Grécia, só aprofundam a recessão. Ao lado do premier belga, Yves Leterme, Dilma lembrou que o Brasil e a América Latina enfrentaram, nas décadas de 1980 e 1990, forte estagnação econômica. Para sair disso, afirmou, foram necessárias medidas não recessivas.
- Nossa experiência demonstra que, no nosso caso, ajustes fiscais extremamente recessivos só aprofundaram o processo de estagnação, de perda de oportunidades e de desemprego e que dificilmente se sai da crise sem aumentar o consumo, o investimento e o nível de crescimento da economia - disse a presidente.
Na Grécia, prosseguem os protestos de estudantes e funcionários públicos. Estes farão uma paralisação amanhã, e uma greve geral está sendo convocada para o próximo dia 19. Isso, segundo Giada Giani, economista do Citigroup, deve agravar a situação econômica do país. "Quanto mais dias de greve, menor o PIB", disse ela ao "Wall Street Journal". (Vinicius Neder, com agências internacionais, e Chico de Gois, enviado especial a Bruxelas)