Título: Fundos brasileiros lucram até 15,3% com disparada do dólar em setembro
Autor: Bôas, Bruno Villas
Fonte: O Globo, 02/10/2011, Economia, p. 40
BTG Pactual, de André Esteves, está entre os que tiveram maiores ganhos
Os fundos de investimento brasileiros estão entre os que mais se beneficiaram com a disparada do dólar em setembro, quando a moeda terminou cotada a R$1,882, numa alta acumulada de 18,14%, a maior registrada em um mês desde setembro de 2002. Após serem muito criticados pelo mau desempenho ao longo deste ano, os gestores dos fundos multimercados (que investem em câmbio, juros e bolsas) fecharam o mês com ganhos que chegaram a superar 15%. E os destaques ficaram boutiques de investimentos como BTG Pactual, Teórica Investimentos, Vinci Partners e BNY Mellon.
Segundo Rogério Freitas, um dos sócios da Teórica Investimentos, o avanço do câmbio permitiu a um dos fundos da gestora ter seu segundo melhor desempenho mensal desde 2006, quando abriu a empresa com outros dois sócios. O fundo rendeu impressionantes 15,35% em setembro.
- Nossa maior aplicação era na aposta de alta do câmbio. Mas também tínhamos posições na queda da Bolsa e tivemos ajuda em alguns títulos prefixados, que ganham em momentos de corte dos juros - explica Freitas.
Fundos têm melhor desempenho em dois anos
Para ganhar com o avanço da cotação do dólar, os fundos foram principalmente à Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F). Eles assumem, por meio de corretoras, apostas na alta do câmbio comprando contratos futuros da moeda.
Na média, os fundos chamados multimercados macro (que investem em diferentes ativos com base em cenários macroeconômicos) tiveram um ganho de 3,14% em setembro até o dia 27 do mês. Foi o melhor desempenho da modalidade de fundos - que tem R$45,8 bilhões em recursos de clientes - em mais de dois anos, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados de Capital e Financeiro (Anbima).
O cenário adverso para a economia brasileira, como alta da inflação e queda na Bolsa, foi transformado em lucro também por outras gestoras. É o caso do fundo multimercado multiestratégia (categoria de fundos que investem em diferentes ativos com várias estratégias) do BTG Pactual, boutique para investidores mais endinheirados liderada pelo bilionário André Esteves. O fundo rendeu 15,34% no mês.
Na Vinci Partners, do ex-Pactual Gilberto Sayão, o avanço do dólar também fez bem. O fundo Vinci Multiestratégia rendeu 6,89% no mês.
Segundo Alexandre Espírito Santo, professor da ESPM, os fundos geridos por boutiques são mais "ariscos" e podem assumir mais riscos. Em 2008, eles registaram fortes perdas. Neste ano, conseguiram balancear positivamente as apostas em momentos de instabilidade.
Saulo Sabbá, sócio da Máxima Asset Management, explica que o corte dos juros também ajudou sua gestora. No caso da Máxima, o fundo Advanced investia em títulos prefixados, que tiveram forte alta depois que o Banco Central (BC) cortou surpreendentemente os juros básicos (Selic) em 0,5 ponto percentual em 31 de agosto, para 12% ao ano.
- E ainda estamos comprados (apostando na alta) no dólar - afirma Sabbá.
Segundo Guilherme Horn, presidente da distribuidora de fundos Órama, os gestores souberam aproveitar as oportunidades que o mercado apresentou em setembro.
- É muito interessante observar a diferença de performance desses fundos com gestão independente e dos bancos. O histórico de rentabilidades mostra isso - disse o executivo.
Estrangeiros seguem expostos a perda no câmbio
No outro lado do ganha e perde com apostas em dólar em setembro, os fundos de hedge (proteção) estrangeiros tiveram fortes perdas. São os chamados Brazil dedicated funds (fundos dedicados ao mercado brasileiro). Muitos ainda acreditavam na valorização do real e não viram a mudança de tendência.
Um dos exemplo disso é o fundo de ações Nikko Resource Stock, da gestora japonesa Nikko. O fundo perdeu apenas no mês passado 28,18%. No ano, as perdas superam 35%. O fundo perdeu tanto a queda do Ibovespa como toda a variação do câmbio no período.
Segundo os dados mais recentes da BM&F, os investidores estrangeiros seguiam com apostas na valorização do real em US$3,268 bilhões na quinta-feira passada. Esse valor é o das posições líquidas vendidas em contratos futuros de câmbio. No fim de julho, essa posição era, no entanto, muito maior: US$20,650 bilhões.