Título: Para Dilma, falta de regulamentação financeira é responsável pela crise
Autor: Gois, Chico de
Fonte: O Globo, 05/10/2011, Economia, p. 24
TURBULÊNCIA GLOBAL: Presidente diz que caso europeu será discutido no G-20
Blog do "Financial Times" diz que conselhos brasileiros à Europa são hipócritas
BRUXELAS. No dia em que mais um banco europeu foi arrastado para o epicentro da crise econômica mundial, a presidente Dilma Rousseff insistiu ontem, em três ocasiões, que a falta de regulamentação do sistema financeiro é a responsável por deixar a Grécia à beira da falência, ameaçando contaminar também outros países europeus. Ela disse que pretende discutir o assunto na reunião do G-20 (que reúne as 20 maiores economias do mundo), entre os dias 3 e 4 de novembro em Cannes, na França. Horas antes, porém, dirigentes brasileiros foram criticados no blog beyondbrics, do "Financial Times", de serem hipócritas ao darem conselhos à Europa sobre a crise. O texto de Samantha Pearson aponta que o mesmo país que condena o protecionismo acaba de elevar o IPI.
A declaração de Dilma, após a 5ª Cúpula Brasil-União Europeia, foi feita ao lado do presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, e do presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso. Ela observou que o mundo assiste à segunda fase da crise e que a política de socorro às instituições financeiras, em 2008, levou a um elevado endividamento público.
- O mundo olha hoje com enorme preocupação a situação econômica dos países desenvolvidos. Em 2008, a ação conjunta do G-20 evitou o colapso bancário e a recessão. Porém, não se conseguiu retomar o crescimento sustentado e, novamente, enfrentamos um cenário recessivo, com elevados índices de desemprego e erosão de conquistas sociais. É preciso ter claro que a ausência de regulação eficaz do sistema financeiro está na origem de todo esse processo - disse.
No encerramento do Fórum Empresarial Brasil-UE, à tarde, a presidente afirmou que a crise exige uma ação macroeconômica coordenada, especialmente nos organismos multilaterais.
- Estabelecer um marco regulatório efetivo que impeça os mercados financeiros de continuarem a ser uma fonte inesgotável de instabilidade é um requerimento que nossos governos não podem deixar de enfrentar - disse, insistindo em crescimento, empregos e direitos junto com a estabilidade macroeconômica e rigidez fiscal.
Após a abertura da Europalia, feira cultural que tem o Brasil como homenageado este ano, Dilma voltou a sustentar que a regulamentação do sistema financeiro é urgente. Ao ser perguntada como o Brasil pode ajudar os europeus, disse que a intenção é abrir uma discussão no G-20. E avaliou que só o controle de fluxo de capital não resolverá o problema, mas enfatizou que cada país adotará as medidas que achar melhor.
Já o blog beyondbrics questiona o conselho de Dilma, na segunda-feira, sobre o risco de impostos restritivos na UE e chama de excêntricas as sugestões dadas recentemente pelo país.
"Sim, você entendeu corretamente. O país que é o 152º no ranking do Banco Mundial por seu pesado sistema de impostos está fazendo recomendações sobre impostos restritivos", diz. "Além de não realista, o conselho vindo do Brasil também soa um tanto hipócrita", acrescenta, mencionando ainda as intervenções cambiais do BC.