Título: Encontro com as origens
Autor: Berlinck, Deborah
Fonte: O Globo, 07/10/2011, O País, p. 14

Dilma é recebida com festas na cidade búlgara onde seu pai nasceu

SOFIA (Bulgária). Dilma Rousseff, altiva num paletó vermelho, não chorou. Mas quem estava à sua volta, no relato de testemunhas, não resistiu e chorou por ela, como o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel. A presidente viveu ontem, como admitiu, um dos momentos mais fortes da sua vida, ao ir a Gabrovo, cidadezinha de 60 mil habitantes no meio da Bulgária, em busca do passado do seu pai, o búlgaro Peter Yussev, que no Brasil virou Pedro Rousseff. Pela primeira vez nos seus 64 anos, ela fez a rota de sua própria história: o pai nasceu e foi criado lá.

Uma multidão nas ruas celebrava a "presidente búlgara do Brasil":

- Estou realizando um sonho do meu pai, que gostaria de estar aqui - disse ela, em meio a aplausos.

Os búlgaros se emocionaram quando Dilma disse que, "por trás da presidente do Brasil, havia um búlgaro nascido em Gabrovo".

- Eu jamais vou esquecer este momento. Blagodaria (obrigada).

Búlgaros se vestiram de verde amarelo e os poucos brasileiros, como os violinistas clássicos Frederico Barreto e Nara Vasconcelos, viajaram três horas de carro de Sófia para ver Dilma.

Autoridades locais anunciaram que a escola onde estudou Pedro Rousseff vai abrir um curso de português. Luba Hristova, que trabalha numa fábrica de máquinas, foi uma das 11 funcionárias escolhidas para ouvir Dilma discursar.

- Senti que ela gosta da gente - disse ela, com um broche escrito Brasil.

No palanque armado onde Pedro estudou, o presidente da Bulgária, Georgi Parvanov, recebeu apertos de mão da presidente, ao dizer que aquela era uma homenagem ao pai dela e a "uma das políticas de maior êxito do mundo".

Mais cedo, Dilma visitou, em Sófia, o túmulo do meio-irmão que não conheceu: Luben Rousev. Tzanka Komenova, prima de Dilma, contou que ela se inclinou diante do túmulo e acendeu uma vela. Junto à foto de Luben, uma coroa de flores brancas, com a frase: "Ao meu irmão Luben".

- Ela não chorou. Foi muito emocionante. Acendeu uma vela e fez uma homenagem. Não falou. No nosso cemitério não se fala nada. Só se acende uma vela - contou Tzanka.

Na cidade do pai, o museu organizou uma exposição sobre a história da família, incluindo o livro com a certidão de nascimento de Pedro e seu diploma da escola. Dilma teve um encontro privado com seus poucos parentes que restam no país. Toshka Kovachova, casada com um primo já falecido de Dilma, é a única parente viva em Gabrovo. Contou que Dilma trocou abraços, e-mails e números de telefone e prometeu mandar fotos da filha e da neto.

Dilma disse que deixava a Bulgária ainda mais convencida de que o Brasil "é um pais fantástico", porque soube integrar pessoas de todas as origens.

- Tem seus problemas, sim. Não é aquela absoluta perfeição, mas é um país onde é possível que uma pessoa filha de um imigrante de primeira geração se eleja presidente da República. Este é o país que, de fato, é do futuro.