Título: Governo pede suspensão de anúncio de lingerie com Gisele Bündchen
Autor: Rosa, Bruno; Tavares, Mônica
Fonte: O Globo, 29/09/2011, Economia, p. 29
Secretaria de Mulheres considerou propaganda "preconceituosa e discriminatória"
RIO e BRASÍLIA. Um comercial com a modelo Gisele Bündchen usando lingerie virou alvo da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM). A secretária Iriny Lopes pediu a suspensão da campanha por considerar as peças "preconceituosas e discriminatórias".
A campanha da Hope, feita pela agência de publicidade Giovanni+DraftFCB, começou a ser veiculada há uma semana na televisão e na internet. Em uma das peças, Gisele usa vestido bege e diz: "amor, mamãe vem morar com a gente". É quando aparece a palavra "errado". Na sequência, já de lingerie amarela e fazendo uma pose sensual, diz a mesma coisa e ainda completa: "Não é o máximo". É quando aparece a palavra "certo". Em off, uma voz completa: "você é brasileira, use seu charme".
Em outro filme, ela, de vestido branco, coça a cabeça e diz para o marido "amor, bati seu carro". Ao lado, aparece a palavra "errado". Em seguida, ela repete a frase, mas está vestida com uma lingerie vermelha, e ainda ressalta que bateu o carro "de novo" - é quando aparece o "certo".
Conar vai avaliar pedido do governo
A subsecretária de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres da SPM, Aparecida Gonçalves, disse que a ouvidoria recebeu várias denúncias, tanto de homens quanto de mulheres, contra a propaganda. Na última terça-feira, por exemplo, foram seis denúncias e, ontem, mais duas.
Outro anúncio da Gisele, que retrata a mulher de forma submissa, não recebeu o mesmo tratamento do governo. No anúncio da Sky, chamado de Balde, a top aparecia ajoelhada, limpando o chão. Nesse momento, o marido, que está vendo televisão, pede uma cervejinha. Ela, então, pergunta qual é a "palavrinha mágica". Ele responde: "maravilhosa". Ela se levanta e diz: "Era por favor, mas essa serve". E larga o balde para levar a cerveja ao marido no sofá.
A Secretaria enviou ofício pedindo a suspensão da campanha publicitária ao Conselho de Auto-regulamentação Publicitária (Conar). A Secretaria também mandou ofício ao diretor na Hope Lingerie, Sylvio Korytowski, repudiando a campanha.
- A propaganda coloca a mulher em uma situação de submissão, de que não é capaz de negociação, em um momento em que ela ocupa locais de poder, em que ela trabalha - disse a subsecretária.
Aparecida Gonçalves afirmou que a Secretaria não tem poder de suspender a propaganda e que cabe ao Conar avaliar. Mas para ela, a publicidade é "preconceituosa e discriminatória". O Conar disse que não recebeu nenhuma notificação.
Adilson Xavier, que comanda a Giovanni+DraftFCB, diz que as peças trazem humor, baseadas em clichês, e ainda traz uma mulher independente. Segundo a Hope, os exemplos utilizados na campanha nunca tiveram a intenção de parecer sexistas. "As situações são brincadeiras, piadas do dia a dia, e em hipótese nenhuma, devem ser tomadas como depreciativas da figura feminina", diz a nota.