Título: Inflação rompe centro da meta
Autor: Ribeiro, Fabiana
Fonte: O Globo, 08/10/2011, Economia, p. 27
No ano, IPCA está em 4,97% e, em 12 meses, ficou em 7,31%, maior taxa desde 2005
Fabiana Ribeiro, Flávia Barbosa e Gabriela Valente
O custo de vida dos brasileiros ficou maior em setembro. A inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), avançou para 0,53% contra 0,37% de agosto, segundo informou ontem o IBGE. Com isso, a taxa acumula em 2011 alta de 4,97% - rompendo pela primeira vez no ano o centro da meta fixada pelo governo (4,5%, tendo como teto 6,5%) e bem distante do patamar atingido no mesmo período do ano passado (3,6%). Já o índice em 12 meses subiu para 7,31%, o mais alto desde maio de 2005 (8,05%). Segundo analistas, para que a inflação não ultrapasse o teto da meta, seria necessário uma inflação média, nos próximos três meses, de 0,483% - o que, para muitos especialistas - é um cenário pouco provável.
Em setembro, as passagens aéreas foram a principal pressão no IPCA, com o custo dos voos disponíveis subindo, em média, 23,40%. A alta dos preços foi consequência do maior volume de viagens em setembro, especialmente por causa do Rock in Rio. Os alimentos, contudo, tomaram conta de 28% do índice do mês. Vários produtos ficaram mais caros, com destaque para o feijão carioca (6,14%), açúcar refinado (3,82%), frango (2,94%) e leite (2,47%). Apesar das altas, os preços do grupo alimentação e bebidas subiu menos em setembro (0,64%) contra 0,72% de agosto.
- A gasolina (0,50%) e o etanol (3,0%), além de outros itens, ficaram mais caros, elevando as despesas com transporte que, junto com a alimentação, ficou responsável por mais da metade do índice do mês - afirmou Eulina Nunes, coordenadora do Sistema de Índice de Preços do IBGE.
Governo já contava com alta do IPCA
Nas contas de Eduardo Velho, economista da Prosper Corretora, apenas um IPCA médio de 0,483% para os meses de outubro, novembro e dezembro trariam a inflação para o teto. Uma viabilidade discutível.
- Nossa estimativa considera o descumprimento desse limite superior, com o IPCA devendo atingir 6,64% em 2011. E essa projeção pode ainda ser revista para cima, caso a taxa de câmbio permaneça, na média, acima de R$1,80 entre outubro e dezembro. Outra pressão poderia vir dos serviços.
Fábio Romão, economista da LCA, acredita que ainda dá tempo para o IPCA recuar para o teto da meta. Mas fez alertas:
- Os alimentos, ainda que no ano tenham uma elevação menor do que a de 2010, devem acelerar no fim do ano, por uma questão de sazonalidade.
Luís Otávio Leal, economista-chefe do ABC Brasil, prevê que a taxa de variação do IPCA em outubro deve vir abaixo do resultado de setembro. Ainda assim, para ele, há 50% de chance de a inflação terminar abaixo do teto. Ele chama atenção para os riscos de reajustes mais altos de carne e etanol.
- É jogar uma moeda para cima para saber se a inflação vai ficar acima ou abaixo da meta. Tem que ver como o dólar vai influenciar os preços e dos choques que vão acontecer.
Para o governo, apesar de o centro da meta ter sido rompido, o IPCA está dentro do previsto e não altera a perspectiva de queda da inflação neste fim de ano e ao longo de 2012, afirmaram ontem ao GLOBO integrantes da equipe econômica.
- Sempre dissemos que o pico da inflação seria setembro e que a partir do último trimestre a trajetória seria declinante. A nossa avaliação continua sendo esta. Está vindo tudo dentro do previsto - afirmou a fonte.
Um outro técnico do governo argumentou que o IPCA já mostra um arrefecimento em relação ao início do ano. De janeiro a abril, esteve na casa de 0,80%, mas, com indicadores antecedentes de outubro, estaria variando 0,34%.
- Não há perspectiva de retomada do padrão inflacionário visto no fim do ano passado - garantiu o técnico.
De acordo com o último Relatório Trimestral de Inflação do Banco Central (BC), a variação dos preços deverá fechar este ano acumulada em 6,4% - encostada no teto. Em 2012, a autoridade monetária projeta um IPCA de 4,7% - praticamente no centro da meta, também fixada em 4,5%.
No entanto, começam a ressurgir incertezas em relação à trajetória futura dos índices de preços. Na quinta-feira, a Conab divulgou o primeiro levantamento da safra 2011/2012, que será colhida no início do ano que vem. A sondagem mostrou uma redução na colheita dos principais produtos em relação a 2010, que deve ficar entre 157,007 milhões e 160,587 milhões de toneladas.
Para alguns economistas, com os preços das commodities agropecuárias elevados no mercado internacional, a redução da oferta de alimentos pode contribuir para o aumento da inflação - que já estará pressionada, por exemplo, pelo reajuste de mais de 14% do salário mínimo, em janeiro.
Outro fator que preocupa é que, enquanto a produção deve cair, a área plantada deverá subir. Fábio Silveira, da RC Consultores, alerta que esta combinação sinaliza redução da produtividade, o que também pode ter impacto negativo sobre os preços:
- Menos alimentos pode ser ruim para a inflação.
COLABORARAM Daniel Haidar e Eliane Oliveira