Título: Emprego nos EUA não garante fim da crise
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Fonte: O Globo, 08/10/2011, Opinião, p. 6
Não chega a ser um alento definitivo, mas o fato de a economia americana ter criado 103 mil empregos em setembro indica a existência de vida no sistema produtivo dos Estados Unidos. Mesmo assim, a taxa de desemprego continuou estacionada em vertiginosos 9,1% (se forem considerados os que, por falta de opção, trabalham meio expediente e aqueles que desistiram de encontrar um patrão, ela sobe para 16,5%). Mas a inesperada abertura de vagas no mercado de trabalho, nesta proporção, reanima a esperança de a economia não mergulhar numa segunda recessão.
A boa notícia, porém, é apenas uma em uma enxurrada de fatos negativos vindos da Europa, onde, como se temia, a crise de insolvência de dívidas de países começa a ricochetear no sistema bancário.
Em ambos os lados do Atlântico, há amarras políticas e institucionais que retardam respostas à crise. Em Washington, a luta fratricida entre republicanos e democratas, em função das eleições do ano que vem, amarra a Casa Branca, e, assim, a aprovação do pacote de gastos para estimular a geração de empregos tramita com dificuldades. Já na Europa, o despreparo das instituições da UE para enfrentar a enorme crise fiscal deflagrada a partir do terremoto global causado pela quebra de Wall Street, em 2008, continua a pressionar um sistema criado para conviver com estados nacionais, mas que teria de agir como união federativa com um poder central. Este desenho levará anos para ser executado - se o for -, enquanto a crise requer ações em questão de horas e dias.
A quebra do banco franco-belga Dexia serviu de alerta para a comunidade se comprometer, de fato, com a aprovação, pelos respectivos parlamentos, dos US$440 bilhões do fundo de estabilização criado para conter a possível tsunami na eventualidade de uma moratória desordenada da Grécia. Pelo menos a Alemanha já aderiu formalmente. Mas prevê-se que o fundo terá de no mínimo chegar a US$1 trilhão.
Acompanhar esta crise a partir do Brasil é como assistir a um videoteipe de cinema-catástrofe, pois o brasileiro já testemunhou de tudo: hiperinflação, quebra bancária, calote em dívida interna e externa.
Inclusive já padeceu da prescrição errada de terapias, como a simplificação feita por Dilma Rousseff há pouco na Europa, ao receitar mais estímulos ao consumo para conter-se a crise. Depende. O próprio Brasil padece hoje de uma inflação alta por ter errado ao elevar gastos permanentes (custeio) para se contrapor aos efeitos da primeira recessão da crise, em 2008/2009.
Grécia, Portugal, Espanha, Itália, Irlanda precisam arrumar as contas públicas para sinalizar aos mercados com equilíbrio fiscal a médio e longo prazos. Não fazer este ajuste é manter-se longe do sistema de crédito, algo inviável. Além disso, resgatar a Grécia, por exemplo, sem o país fazer o dever de casa, significa preservar uma estrutura interna de gastos ditada por corporações sindicais de servidores públicos, entre outras, algo também inviável. O país explodiria mais uma vez. Seria, inclusive, premiar o erro.
Mas também é certo que existem limites aos ajustes, pois sem que as economias voltem a gerar renda, emprego, impostos, nenhuma dívida, mesmo a renegociada com grandes abatimentos, poderá ser resgatada. A questão é mais complexa do que transpareceu na bravata da presidente brasileira.