Título: Briga de policiais respinga no governador do DF
Autor: Carvalho, Jailton de
Fonte: O Globo, 09/10/2011, O País, p. 17

Agnelo Queiroz (PT) está no fogo cruzado de doleiros, agentes e PMs que exigem cargos de confiança em seu governo

BRASÍLIA. Há dez meses no cargo, o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), está sob o fogo cruzado de uma briga entre facções de policiais e ex-policiais envolvidos na disputa por nacos de poder e dinheiro público. Na crônica ainda não escrita dessa guerra suja constam denúncias de grampos clandestinos, informações plantadas em blogs de aluguel e chantagens. O caso também pode trazer de volta denúncias de caixa dois e supostas fraudes no programa Segundo Tempo, do Ministério do Esporte, no período em que Agnelo era o ministro.

A presença de policiais em postos-chaves do governo do DF tem sido uma rotina. Há mais de cem policiais em escritórios do governo. O secretário de Justiça e o subsecretário de Transportes são policiais civis. E o Distrito Federal é das unidades da federação com os mais altos índices de homicídios do país.

A disputa, que estava restrita aos bastidores do governo do DF, transbordou por conta da briga entre policiais e provocou duas investigações: uma na Polícia Civil e outra no Ministério Público. O objeto formal da investigação, por enquanto, é o roubo de imagens do circuito interno da padaria onde os policiais discutiram, em 18 de agosto. O agente Cláudio Nogueira sacou a arma para o cabo da PM João Dias Ferreira. Fez isso para evitar a prisão do doleiro Fayed Traboulsy e do agente aposentado Marcelo Toledo. Os dois cobravam do então presidente da Codeplan, delegado Miguel Lucena, um dos principais auxiliares de Agnelo, indicação de diretores para a corretora BRB Seguros, do Banco Regional de Brasília, e para a DFTrans, companhia de transporte do DF.

Toledo e Fayed teriam doado R$500 mil para a campanha de Agnelo e, como contrapartida, exigiam cargos de duas das áreas mais cobiçadas do governo do DF. Os R$500 mil teriam sido repassados a Rafael Barbosa, um dos arrecadadores de campanha de Agnelo e atual secretário de Saúde. A doação não consta na prestação de contas de Agnelo à Justiça Eleitoral.

Toledo é também um dos principais investigados na Operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal. Ele é apontado como um dos envolvidos na partilha do chamado mensalão do DEM, na gestão do ex-governador José Roberto Arruda. Na filmoteca de Durval Barbosa, pivô do escândalo, constam três vídeos em que o policial aparece recebendo propina.

Fayed já foi até denunciado por lavagem de dinheiro da campanha do ex-governador Joaquim Roriz, em 2002. O nome do doleiro aparece em várias outras grandes investigações sobre corrupção. Irritado com as exigências do doleiro e do policial aposentado, o cabo João Dias, que comia a pizza com Lucena, tentou prender Fayed. Mas não contava com a reação do agente Cláudio Nogueira.

Dias tentou registrar queixa na 3ª DP. Dizia que o governador Agnelo estava sendo chantageado por Toledo e Fayed. O delegado Onofre Moraes não quis registrar a queixa, mas, a partir da reclamação da síndica do prédio da padaria, abriu inquérito para apurar o roubo de um HD de computador com as imagens da confusão.

Dias foi preso ano passado na Operação Shaolin, que investigou desvios de dinheiro do programa Segundo Tempo, do Ministério do Esporte. Ele é acusado de desviar quase R$3 milhões destinados ao incentivo ao esporte infantil. Mesmo depois de denunciado pelo Ministério Público Federal, Dias também cobrava de Agnelo a indicação de diretores da BRB Seguros, os mesmos cargos cobiçados pelo doleiro Fayed e pelo policial aposentado Toledo.

Outro personagem conhecido da política local, o blogueiro Edmilson Edson dos Santos, o Sombra, pivô da tentativa de suborno que resultou na prisão do ex-governador Arruda, já avisou que está disposto a revelar detalhes das negociações entre Fayed, Toledo e assessores próximos do governador Agnelo, durante a campanha eleitoral. O Ministério Público deverá chamar Dias e outros envolvidos para depor.