Título: Privatização desempacou a economia
Autor:
Fonte: O Globo, 11/10/2011, Opinião, p. 6
No último domingo, O GLOBO iniciou uma série de reportagens que tem como ponto de referência os vinte anos de privatização da companhia siderúrgica Usiminas.
Muitos obstáculos tiveram que ser superados desde então, mas não existe dúvida de que o saldo desse programa é altamente positivo. Ao reduzir seu papel de empresário, o estado brasileiro pôde se voltar mais para questões cruciais sob sua responsabilidade, a exemplo da educação, da saúde, da segurança e de alguns serviços básicos. Até mesmo as companhias estatais remanescentes, sejam elas federais, estaduais ou municipais, ganharam mais liberdade de ação, pois tiveram de se modernizar para sobreviver em ambiente mais competitivo.
Embora tão criticada no discurso político, a privatização continuou no governo Lula, sob a forma de concessões de rodovias e outros serviços. E agora, no governo Dilma, se estenderá aos aeroportos, o que é fundamental para que se consiga multiplicar investimentos neste segmento cuja demanda vem crescendo exponencialmente.
A privatização foi um divisor de águas nos rumos da economia brasileira, pela oportunidade que o programa criou para atrair investimentos, e principalmente por ter ajudado o país a se distanciar de modelos burocráticos fracassados, similares ao do extinto império soviético.
O mais difícil, nesse processo, foi superar o embate ideológico. O próprio presidente Fernando Henrique Cardoso, antes de assumir o Ministério da Fazenda no governo de seu antecessor, Itamar Franco, era um crítico das privatizações ocorridas. Porém, ao assumir a condução das finanças públicas nacionais, percebeu a gravidade do desequilíbrio que precisava ser corrigido.
Enquanto o país tivesse como perspectiva a continuidade desse desequilíbrio, a política econômica provavelmente não reuniria condições para deflagrar um plano capaz de derrotar a inflação aguda e crônica.
A privatização não só mudou o ambiente de negócios na economia do país: foi uma das ferramentas que contribuíram para o sucesso do Plano Real, cujo benefício é imensurável.
Assim, no lugar de um embate ideológico restrito a grupos políticos, a experiência das privatizações mostrou que a iniciativa deve ter, mais do que qualquer outra coisa, um sentido pragmático.
Felizmente, o governo Dilma percebeu isso a tempo em relação a um dos maiores gargalos da infraestrutura de transportes do país: os aeroportos. Sob quase inteira responsabilidade de uma companhia estatal que vive emaranhada nas teias da burocracia, os aeroportos brasileiros não condizem mais com o atual estágio da economia brasileira. Deixam insatisfeitos e inseguros os brasileiros que utilizam seus serviços, e chocam nossos visitantes. E como eles serão cartões de visita do país nos grandes eventos que se aproximam, é necessário correr contra o tempo.
A privatização não fará milagres, mas certamente dará mais agilidade na busca de soluções para os problemas. Se, há vinte anos, o então governo Collor não tivesse ousado ao privatizar a Usiminas - considerada a mais eficiente das estatais siderúrgicas na época - talvez a economia do país estivesse ainda hoje empacada.