Título: Cristina Kirchner e o poder da ficção
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Fonte: O Globo, 14/10/2011, Opinião, p. 6

Com a reeleição de Cristina Kirchner no dia 23 tida como certa, as atenções se voltam para os planos da presidente num segundo mandato. A maioria dos analistas aponta o risco de "aprofundamento do modelo", levantando a hipótese de um reforço do combate kirchnerista à imprensa profissional independente. O que faz sentido: o governo vende aos argentinos, num clima de ficção, que o país vive no melhor dos mundos. E, portanto, não tem o menor interesse que os meios de comunicação quebrem esse encanto com o peso da realidade.

O grande trunfo de Cristina e de seus partidários é o forte crescimento da economia, apoiado no estímulo ao consumo e nas exportações agrícolas - em agosto, o PIB se expandiu a um ritmo anual de 7,3%. Mas alguns analistas preveem que o ritmo se desacelerará devido à turbulência da crise mundial. Será difícil manter a ficção por muito tempo, porque a inflação, por exemplo, é o dobro do que admite o governo, o que causa uma série de distorções na economia.

Para o colunista Joaquín Morales Solá, do "La Nación", "a denominada batalha cultural, que é no fundo uma guerra contra a imprensa livre, é outro plano imediato do kirchnerismo". Pode-se esperar, portanto, um recrudescimento das pressões contra grupos como o "Clarín" e o próprio "La Nación". E isto se daria através de uma nova ofensiva para nacionalizar a Papel Prensa, empresa que fornece o papel em que são impressos os jornais argentinos e que pertence aos dois grupos citados e ao governo. Feito isso, a Casa Rosada terá a faca e o queijo na mão para arroxar a imprensa crítica e premiar os amigos. Nem pensar em transparência, crucial numa democracia. O importante é a ficção kirchnerista.

A cruzada contra a imprensa daria ao governo munição para jogar para debaixo do tapete os efeitos de turbulências econômicas que se aproximam. A Argentina já atravessa uma crise de confiança que começa a afetar as reservas devido à fuga de capitais. Segundo o Banco Central argentino, US$9 bilhões deixaram o país no primeiro semestre. Além disso, os principais destinos das exportações estão desacelerando - casos de China e Brasil - ou empacados, como a União Europeia.

A chamada Lei de Meios, expressão do desejo governamental de controlar a imprensa independente, acaba de completar dois anos em vigor. O resultado foi reduzir o espaço dos veículos críticos do governo e fortalecer o sistema de meios públicos e privados paraoficiais - formado em grande parte por canais de TV e emissoras de rádio comprados por amigos do poder ou subjugados pela publicidade oficial.

Ainda assim, a Casa Rosada diz que a comunicação, agora, é "mais democrática". Isso ainda é pouco para o titular do sistema público TV Digital, Oscar Nemirovsci. Ele afirma, citado pelo "La Nación", que "a batalha não terminou". Certamente, no segundo mandato de Cristina, o objetivo é chegar a uma imprensa totalmente "democrática". Pena que, para o kirchnerismo, isto queira dizer uma imprensa totalmente pró-governo, 100% ficção.