Título: No reino de Cristina
Autor: Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 15/10/2011, O Mundo, p. 42

A transformação de El Calafate, na Patagônia argentina, exemplifica o poder e a fortuna acumulados pelos Kirchner

A presidente argentina, Cristina Kirchner, costuma dizer que a cidade de El Calafate, na fria e distante província de Santa Cruz, é "meu lugar neste mundo". Basta caminhar pelas ruas de um dos destinos turísticos mais visitados da Argentina e conversar com seus moradores para confirmar que Calafate é, de fato, o reino que Cristina construiu com seu marido e antecessor, Néstor Kirchner. Desde que o casal decidiu investir na região famosa por suas geleiras, como a de Perito Moreno, a cidade ganhou um aeroporto internacional que já está sendo ampliado e modernizado e hoje é uma das principais portas de entrada de turistas estrangeiros na Patagônia. A presidente, que no dia 23 disputará a reeleição e, de acordo com todas as pesquisas, conquistará o terceiro mandato consecutivo dos Kirchner, é dona dos dois hotéis mais luxuosos da cidade, além de uma pousada e uma casa de campo. De hoje até domingo que vem, O GLOBO mostrará, numa série de reportagens, como o Casal K acumulou fortuna, poder e prestígio político na Argentina.

Um dos hotéis de Cristina em El Calafate chama-se Los Sauces e está localizado no mesmo terreno onde a família tem uma belíssima casa de três andares - a mesma que, segundo revelou Cristina à jornalista Sandra Russo, autora de "A presidente, história de uma vida", provocou várias discussões entre marido e mulher. "Foram anos de brigas. Ele (Kirchner) me dizia: "Deixa de gastar dinheiro lá!". Mas, depois que lhe transmiti o amor por este lugar, não havia coisa de que ele gostasse mais do que estar aqui", contou a presidente. Nessa mesma casa, ela viveu um dos dias mais difíceis de sua vida. Na manhã de 27 de outubro de 2010, Kirchner sofreu um ataque cardíaco e, apesar dos esforços de seus médicos em Calafate, morreu antes de chegar ao hospital.

A paixão dos Kirchner pela cidade levou a família a investir vários milhões de dólares em propriedades e terrenos na região. Ninguém conhece o tamanho exato do patrimônio, que, segundo fontes locais, supera amplamente o informado ao Escritório Anticorrupção. Sabe-se que, além de Los Sauces, a presidente possui o Hotel Alto Calafate - embora as recepcionistas neguem - a Pousada Las Dunas e a casa de campo La Usina, onde turistas podem realizar atividades como pesca e passeios a cavalo. Mas a sensação entre os moradores é de que os Kirchner controlam muito mais do que aparece formalmente na declaração de bens e são os verdadeiros donos da cidade.

Em agosto, Cristina confirmou ter 27 propriedades - a grande maioria em Santa Cruz - e uma fortuna de US$19,9 milhões, a mais alta já acumulada por um presidente desde a redemocratização, em 1983. A lista inclui 6 casas, 12 apartamentos, 6 terrenos, 3 imóveis comerciais, além de 19 aplicações em renda fixa e a participação majoritária nas sociedades anônimas que controlam os hotéis. Mas os Kirchner teriam muito mais. Enquanto Néstor era governador de Santa Cruz, entre 1991 e 2003, a família comprou terras fiscais (que pertenciam ao Estado) a preços baixíssimos que, com o desenvolvimento da região, multiplicaram seu valor. A hoje quase inexistente oposição denunciou o esquema, mas os seguidores do Casal K argumentam que todos os moradores se beneficiaram:

- Meu terreno custou US$2,5 mil parcelados e hoje vale mais de US$20 mil - diz um advogado local, que, como todos os moradores de Calafate, só aceita conversar sobre os Kirchner em anonimato. - A diferença é que Kirchner comprou terrenos mais caros e escolheu as melhores localizações.

Em Santa Cruz, são poucas as pessoas que se atrevem a falar publicamente sobre Néstor e Cristina. O poder da família e, sobretudo, sua capacidade de favorecer e prejudicar aliados e adversários assustam. Ninguém questiona seu enriquecimento e dos seus colaboradores, entre eles o ex-secretário privado da presidente, Fabián Gutiérrez, que depois de ter sido acusado de enriquecimento ilícito renunciou e mudou-se para Calafate, onde construiu uma casa avaliada em cerca de US$1 milhão. Para a grande maioria dos habitantes, a cidade e a província cresceram graças à família, e isso é o que interessa.

- A corrupção sempre existiu, mas isso faz parte da política. O importante é que todos nos beneficiamos com as obras públicas - disse um comerciante que chegou a Calafate há oito anos, quando o número de habitantes era de apenas 2.500 pessoas, e hoje pouco se importa com o fato de o patrimônio dos Kirchner ter crescido mais de 900% entre 2003 e 2011.

Atualmente, 20 mil argentinos vivem aqui e dependem do turismo que se multiplicou graças ao casal. Após a morte do ex-presidente, a principal avenida de Calafate passou a chamar-se Néstor Kirchner. Era o lugar onde ele gostava de caminhar. O Hotel Los Sauces, decorado pessoalmente pela presidente, e a casa da família também ficam nesta rua. Segundo uma fonte vinculada ao hotel, construído há cinco anos, Cristina costuma atravessar o portão de madeira que separa sua casa de Los Sauces para controlar o trabalho da equipe: "Ela é capaz de perguntar por que trocaram uma almofada de lugar. Lembra-se de absolutamente tudo".

Para conseguir uma reserva - diárias a partir de US$300 - o melhor é evitar o sotaque argentino e, sobretudo, o portenho. A gerência evita hóspedes nacionais e prefere americanos, europeus e latinos, especialmente brasileiros. O objetivo é afastar do reino de Cristina compatriotas que possam invadir sua privacidade. Há hidromassagem em todas as banheiras e carrinhos de golfe para transportar os hóspedes até suas casas, além de dois restaurantes que servem delícias patagônicas como empanadas de cordeiro, salmão e trutas. A presidente às vezes jantava com o marido por lá e também gostava de frequentar o bem equipado spa. Desde a morte de Kirchner, no entanto, tem preferido descansar em sua residência. Constantemente é vista chorando quando chega em Calafate.