Título: Uma família, três bolsas
Autor: Weber, Demétrio
Fonte: O Globo, 15/10/2011, O País, p. 3
Mesmo assim, pescador e oleira no PI têm dificuldades para criar 4 filhos
ADÃO DOS Santos (esquerda) com Maria Irineuda e três dos quatro filhos
TERESINA. A família do pescador Adão dos Santos, de 50 anos, e da oleira Maria Irineuda Araújo da Silva, de 36, recebe três bolsas de transferência de renda: Bolsa Família, para três dos quatro filhos em idade escolar, de R$166 mensais; Bolsa Pesca, de R$545 mensais, de 15 de novembro a 15 de março, no defeso (época de reprodução de peixes, com a pesca proibida); e Bolsa Produção, de R$150 mensais, de maio a julho, quando o aumento das águas dos rios e as chuvas inundam a área de extração de barro, necessário à produção de tijolos.
Mas as três bolsas não fazem a família superar todas as dificuldades que enfrenta para alimentar e garantir a educação dos quatro filhos. A residência do casal, no bairro São Joaquim, periferia de Teresina, foi feita com os tijolos que produz, mas não tem portas internas. O piso é de cimento, e Adão diz que nem sempre tem R$2 que as crianças pedem para lanchar - ou para, por exemplo, participar de uma excursão escolar ao Parque Zoobotânico de Teresina na comemoração pelo Dia das Crianças.
Adão diz que, no período normal, pesca no Rio Parnaíba e conserta barcos e canoas. Há dias em que ganha R$40 ou R$10, dependendo da quantidade de peixes que pega com instrumentos artesanais como o espinhel:
- Ganho mais quando não estou pescando. Com o Bolsa Pesca, em um ano comprei uma mesa para a televisão; no outro ano, um motor para o barco; e, este ano, estamos planejando trocar a geladeira porque a nossa está muito velha.
Maria Irineuda afirma dar "graças a Deus" pelo Bolsa Família. Mas o dinheiro só dá para comprar alimentos e material escolar:
- Não dá para outra coisa. Temos um menino de 10 anos que precisa tomar hormônio porque parou de crescer, e não temos como conseguir R$50 para comprar o remédio. Há um ano ele não toma o hormônio.
Irineuda conta que terá de largar o trabalho como auxiliar de olaria, porque a prefeitura de Teresina proibiu a extração de argila na área. Ela vai trabalhar como pescadora, na esperança de ganhar o Bolsa Pesca.
*Especial para O GLOBO